Episódio 102 – Alvorada Carioca

Pois é, ando meio viciado em samba, mpb, soul brasileiro, enfim, nessa história algumas músicas foram parar no meu mp5. Simonal, Hyldon e principalmente, Cartola.

Pois bem, acordo cedo todo dia. Cinco horas da matina, tipo um honrado marmiteiro. E como alguém que se preze, calço os sapatos e ponho os fones.

O trajeto começa com o sol tímido ainda, alvorada mesmo. Os pássaros exercitam sua voz, prontos pra dar seus shows. E é aí tive uma puta visão: Ouvir esse estilo de música essa hora é DO CARALHO! Porra, fica mais especial ainda depois que você atravessa a ponte. Ela desemboca bem ali na área portuária, perto da rodoviária Novo Rio.

A visão é muito, muito legal. Entre pilares com os dizeres de Gentileza, você vê passos apressados e misturados. Gente de terno&gravata andando com marmiteiros de calça jeans batida, é um dos poucos momentos que tribos – na liberdade de minha expressão – se unem. Gente boa ou não, eu não sei – mas trabalhadora com certeza.

Então um ônibus lotado fica páreo a páreo com o meu, olhares se cruzam. Alguns com sono, outros curiosos, crianças brincando com o vidro com seus minúsculos dedos, tentando descobrir o mundo fora do colo da mãe.

O céu vai ficando cada vez mais colorido, num misto rosa-laranja. Há uma melancolia nisso tudo, um sentimento quase ancestral. Não é algo imposto pela mídia, por nenhuma dessas merdas. Está na cara das pessoas. Mesmo aqueles homens de sorriso vago sorrindo a contar sobre seus times de futebol, encostadas naqueles muros repletos de antigos cartazes, atrás dos risos há uma dor. É algo que não se pode conectar. Parece ser tudo tão variado…

Contas, cansaço, filhos, alguma violência, ausência de contos de fadas, saudade… Sei de mim, não sei deles. E talvez essa seja a resposta – cada um com sua vida. Mas, não poderia ser diferente. O pessoal compõe o coletivo. São peças montando a realidade. E, ainda assim, ainda há espaço para aquela cantada à trocadora, a gentileza ao senhor, a bolsa sendo segurada.

Lá vem o sol nascendo, arrastando a luz pela cidade, limpando as trevas. Os carros e as solas de sapatos e sandálias apagam os tantos causos e dissabores que aquele chão tanto testemunhou. E aí você, até mesmo sem conhecer, sente um sentimento de ligação com elas. Será que está certo o que dizem? Somos todos irmãos?

E o ônibus se vai, mostrando favelas. A “alvorada lá no morro”, pombos e viadutos escuros em paralelo aos prédios solitários e monolíticos. Volta e meia um mendigo a sorte das vidas. É bom. Te conecta.

Prevalece a luz. O dia se desenrola. Um som perdido de alguma estação de rádio numa vazia viela, o porteiro bocejando, os passageiros sumindo dos pontos, um amor na vida… E gira. E volta, e se repete. Se vão os dias como folhas de um velho calendário, mas a vida continua igual à todos dias, numa distorcida e diferente rotina. O mundo é um moinho.

Foto cedida por: www.hoteliernews.com.br



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