BlogBlogs.Com.Br

Episódio 68 – C’est la mort

” Um dia, em algum lugar de minha juventude, disse que o demônio eram as pessoas. Grave erro. Oh, obrigado pelo elogio, mas a jovialidade escorreu de meu corpo ao longo dos anos. O que você está vendo, é uma alma da “melhor idade” dentro de um corpo vinte.

Não me olhe deste jeito, como tantos já o fizeram, capiche? Imagino que não esteja entendendo, e compreendo isso, eu mesmo levei muito tempo para chegar neste estágio. O seu tempo é apenas um pouco diferente do meu. Em meus anos, diziam que comunistas comiam crianças – todos acreditam. Hoje, se eu lhe disser que existem apenas 15.000 iguais a mim pelo mundo, você de fato não acreditaria. Ah, claro, o que sou, você pergunta. Você tem escolha, pode ir embora agora.

Ah, eu imaginei que não iria. Apenas não imaginei que veria seu belo sorriso nesta situação, e este abafado comentário de que estou insano. É claro que pessoas não vivem pra sempre. Eu de fato, estou maluco. Perdoe-me, pode se retirar, mas antes, pegue a chave no armário do canto.

Hm? Está com medo, ou seu pescoço apenas apontou isso acidentalmente? Sim, tomei o luxo de me especializar em linguagem corporal, do rebanho – desculpe-me – dos mortais. Não vai? Deixemos claro que isto foi uma opinião sua – não que eu goste de me ausentar das culpas, mas gosto de cartas na mesa.

Você quer uma explicação, e eu a darei. Alias, pode abotoar sua blusa. Decotes, ou outros destes corporais artifícios, já não me causam efeito algum. E há um longo tempo. Eu já estou morto. É necessário eu me aprofundar? Ah sim, você tem senso de humor.

Pegue, pegue essa taça que eu quebrei, não me faça desperdiçá-la. Vá, corte meu pulso. Corte! Me dê isso então… Viu? A pior parte é quando você precisa fingir dor e deixar o mel da vida escorrendo para que ninguém desconfie.

Enfim, enquanto todos os meus parentes se desfazem em algum tumulo perdido nos cantos do Rio de Janeiro, eu vivo aqui, e veja, estou usando até mesmo um Armani e perfume francês. É claro, essa é uma ocasião especial, mas não deixe que isso lhe suba a cabeça, você é apenas um ser que morre aos poucos. Eu não.

Sabe, eu e os meus temos muitos nomes. Eles deslizam desde Vampiros, até Bons Vizinhos. É claro, manter a normalidade é essencial, facilita tudo, embora até os dias atuais eu às vezes me atrapalhe ao abrir uma porta de carro. E acredite: Isso pode me denunciar gravemente, assim como não respirar ou piscar os olhos. Como dizem, os detalhes são os protagonistas.

Ei, você está ficando nervosa? É claro que está, e isso é justificável, afinal estou conversando calmamente e já parei de sangrar. Eu ainda fiquei pior que você no início, mas talvez esse não-espanto se deva a massificação dos meus em sua sociedade, ultimamente. Em filmes baratos, livros de canto ou aqueles jogos que tanto gosto. Sim, eu gosto e isso é definitivamente real.

Não somos malignos de tout. Por exemplo, alguns de vocês tratam com certo desdenho pessoas que apenas possuem mais melanina. Isso os faz mais puros apreciáveis? Estou certo que não. Mas colocando estes temas polêmicos de lado, apenas não morremos mais, e isso se dá por um motivo tanto fisiológico quanto místico – ambos conceitos andam de mãos dadas em nós. No alto de meus 73 anos, já vi pessoas que viram escravos, e até mesmo se alimentaram deles.

Foi difícil de entender? Certo, permita-me encaixá-la na questão: Enquanto você conversa comigo e lembra de sua infância, há 20 anos atrás, alguém dança pela escuridão da rua desde quando sua avó encontrava-se com seu avô, na praça. E ela não mudou, em partes.

Não se exalte nas perguntas, ma chérie. E sim, alimentamo-nos de sangue. Não, sangue animal não surte tanto efeito. Largue estes malditos clichês idealizados, eles me perturbam, mais do que aquela gritaria característica das igrejas. Nós nos alimentamos de pessoas, ao pé da letra. Eu não as mato, e poupe seus aplausos, porque não sou um mocinho.

Ah, que doce, eu sei que você costumava me ver como alguém incapaz de até mesmo matar uma mosca. Mas, saiba, a maioria de nós age com o veneno: Imperceptível até que se revele. Você realmente não estranhou estas marcas em meus braços, ou até mesmo a minha resistência em ir à praia? Deus, e eu pensando que aquele sumiço, na ultima sexta-feira, havia me denunciado.

Como assim eu ando de dia? E quem disse que não podíamos? Ora, somos cadáveres ambulantes, não entramos em combustão quando andamos no Sol. Todo este mito que nós eternos não podemos andar à luz solar não se passa de uma grande mentira assim como sua vida. O único motivo pelo qual escolhemos a iluminação lunar é porque no escuro é mais fácil caçarmos. Mas, tenho de ser sincero, o Sol me causa certo desconforto. E é assim com outros também. Talvez seja o parentesco com o fogo, que de fato, nos é abominavelmente letal.

Por que clichês idealizados me perturbam? Poder em excesso. Veja, nós criamos isso. Toda essa ilusão de Sol, poderes que não possuímos, e artifícios católicos. Devessem remanejar toda esta água “benta” a aqueles que morrem de sede e perecem em suas condições humanas. Mas entenda, criar fraquezas é o único modo de ser menosprezado e equilibrar, nas pessoas, o desejo de nos conquistar. Se contássemos a todos o que de verdade somos, então uma nova Santa Inquisição teria início, e nós, ao invés de vocês, seriamos os escravizados.

Mesmo assim, tome cuidado com alguns religiosos, e até mesmo bruxos. Embora não seja tão perigosos como escritores que tiveram noticia de nós, são um risco. Eles sempre largam no eco uma mensagem de aviso. Como se vocês, mortais, fossem pegar seus caros celulares ou inúteis palavras de amor. O máximo que podem fazer é pegar estacas e se com sorte nos acertarem o coração, então nem assim morreríamos, apenas ficaríamos estagnados, imobilizados até que você retire se sentindo vitoriosa.

Se não sentimos amor? É claro que não. A vitae substitui isso tudo. Desde o prazer de degustar uma gostosa guloseima, até o gozo com uma mulher de grandes capacidades. Ela é como a droga do viciado, ou a maior das alegrias. Mas, pode parecer fantástico, mas alguns de nós conseguimos isso. Embora seja um tanto sofrível comer -no amplo sentido da palavra- somos todos atores e sorrimos para que a morte continue nos dando vida. Desculpe, mas nem em mil anos eu seria o seu príncipe encantado. Ah, por favor, sirva-se desse vinho. Odeio bebidas alcoólicas, isto não bebo nem sob penitencia. Vale citar que é de extrema necessidade alimentar-se toda noite, visto que não fazê-lo acarreta drásticas situações. No fim, sua essência me mantém vivo, e eu não me importo. Não depois de algumas centenas de refeições.

Meus pais? Ah, são um doce, não são? O que fiz a elas foi dar apenas um pouco do meu sangue e modificar suas memórias. É claro, substituições. Nós nos esforçamos para parecer normais, até mesmo gastamos nosso infinito tempo debruçados em frente a telas e escrevendo coisas, nesta constante necessidade que vocês tem de se comunicar. Se não fizéssemos, seriamos o estranho do fim da rua, e isso é mortal.

Quando damos certa quantia de nosso sangue, a pessoa se torna apaixonada por nós, a ponto de dar sua misera vida. Isso trás certas vantagens, visto que o nosso mel, tardia o envelhecimento. E, como mudamos a mente alheia? Com base em nossa própria vitae. Apenas embutidos o que quisermos lá. Mas, o dom das trevas é diferente para cada um, sendo alguns excluídos desta benção.

Como pessoas se tornam “vampiros”, você me diz. É da mesma forma que a ficção diz. E isso foi deslize de um maldito artista. Um instante, vou fechar a janela. Os vizinhos daqui são discretos, mas quem sabe você não me trás azar? Sou supersticioso, oras!

De toda forma, para nós, resgatá-los da mediocridade é especial. Pelo menos eu, tenho meus parâmetros, que seguem de mãos dadas com meus objetivos.

Por favor, volte para aquela expressão de dúvida inicial. Não se deixe isso perder só porque, depois de anos de “amizade”, você pôde notar meus caninos. São discretos, não são? Encobrir estas características me rendem um gasto de… Adivinhe! Isso mesmo, sangue. Mas se eu fosse você, começaria a chamar de vitae

Como eu virei… Isso não vem ao caso, não vou te responder. Mas posso lhe dizer que a minha senhora foi generosa. Permitiu-me ver o último nascer e pôr do Sol, ter um delicioso almoço e até mesmo livrar-me de detritos que repousavam em meu hoje atrofiado intestino. Imagine se aquilo poderia perecer pra sempre em mim? De toda forma, como eu já lhe disse, posso parecer humano. Até mesmo manipular meu peso e um pouco da altura… Mas isso tem um custo e não mais depende de nossas “peças de fabrica”, estas são mortas no momento em que você abraça a imortalidade.

Eu sei, você sempre sonhou com a imortalidade. Você sempre partilhou isso comigo. Mas não pense que são todos os que gostaram disso. E eu os entendo, pois foi difícil pra mim ver meus reais parentes morrendo aos poucos, e minha namorada que acabou por virar minha fonte de nutrientes. Você já pode imaginar seus cabelos coloridos e belos olhos já não mais causavam efeito. Eram apenas um monte de carne, que eu fingi gostar depois da Mudança, para que pudesse abatê-la como uma ave.

Nós só podemos chorar duas vezes em nossa eternidade particular, e eu já perdi as duas chances. E não ouse perguntar o porque, isso é uma grosseria.

Vou te vestir com este casaco. Eu sei que não é frio, mas vamos fingir que é. Vamos ignorar o seu medo, pois o show está pra começar. Por favor, recolha-se a aquele armário. Eu tenho visita. Você verá a real capacidade de minha anatomia. Vai entender porque os seus livros de história foram modificados, porque o seu governo mente. Vai perceber que você não passa de um fantoche dançando a nossa música. Agora vá e trate de não derrubar nada, porque diferente de você, estas mobílias são importantes.

E eu sei que você não vai fugir.

Oh, Luci! Está maravilhosa… Não, o jantar ainda não está feito. Reservei-me o direito de te esperar para assim cozinharmos juntos. Veja este CD, você gosta de Beatles, não é? Vamos colocar. Isso, me dê sua mão… Você está ótima esta noite. Realmente… incrível. Ainda me lembro quando nos conhecemos naquele ônibus, foi tudo tão de repente! Ah, obrigado pelo elogio, mas me delimito a ser especial apenas pra você.

Apenas repouse… não é a primeira vez. O que eu faço? Ah, apenas feche os olhos e aproveite o momento…

Pode sair do seu armário, ela está morta, e por conta disso não vai perguntar quem você é e eu não precisarei dizer que não é isso o que está parecendo. Me certifiquei de ser rápido para que você não se sintam tão mal. Antes que pergunte, eu realmente gosto de Beatles. Here Comes the Sun é extremamente irônica, mas uma de minhas favoritas.

Controle-se! Calma! Estes seus sentimentos de fúria não vão te levar à lugar nenhum, ou talvez até leve… Ao mesmo buraco que ela. Veja seu semblante, é feliz. O Beijo, como chamamos, é prazeroso. Ela morreu com o prazer, não é poético? Veja como sua pele está branca, linda. Não me culpe, a verdade é que sou um predador e a fraqueza dela é a promiscuidade. Ou pelo menos era.

Pode me alcançar aquele lenço? É horrível quando a refeição seca em seus lábios. Obrigado. Vejo que parece conformada. E o corpo? Não se preocupe, mais tarde alguém virá buscá-lo e ninguém vai ver.  Ela descansará em paz nos fundos daquele colégio, ou vai se tornar vitima de um atropelamento. Eu realmente não mais me preocupo com isso.

Voltando ao assunto, visto que agora não teremos mais interrupções… Ah, pode colocar o casaco em outra cadeira. É um bom casaco, me certificarei de guardá-lo. Nunca se sabe quando precisaremos de uma roupa cara, não é? E até seria falta de consideração, ela deve ter trabalhado muito para conseguir tal roupa. Eu aprecio quem tem bom estilo, e senso.

Agora, permita-me ir até a cuisine preparar um farto jantar pra você. Perdoe-me, mas não pensou que eu gastaria minha vida apenas não fazendo nada, não é? Certifiquei-me de aprender os idiomas humanos, e como usar suas máquinas. E claro, e principalmente, aprendi sobre vocês. Suas emoções e reações. Sei que, embora pareça o anjo de candura, no fundo acabe por arder em chamas de vontade. Por mais que você tente esconder, eu sei o que sua mente deseja. E isso mostra que santa você nunca foi.

Por que vou cozinhar para você? Não sabia que você estava tão deslocada. Achou que eu lhe contaria tudo isso e deixaria você voltar para casa? Não, não quero que as pessoas façam para você a mesma expressão que fez no começo. Ou pior, não quero que elas acreditem como você acreditou em mim. Você ficou aqui e viu muito, até mesmo o que vocês consideram crime. No fim das contas, foi uma opção sua, você entende? Que bom. E acalme seu coração, posso ouvi-lo daqui.

Eu fico bom de avental? De todo jeito, pode ligar a TV, tenho algumas centenas de canais pra você. Às vezes o inimaginável se torna real quando procuramos demais.

Comece a sorrir. O frio que lhe corre a espinha é normal. Eu te escolhi e você terá de aceitar isso.

E, alias, ligue para sua mãe. Avise que vai chegar tarde… Bem tarde.”

Popularity: 8% [?]

Related posts:

  1. Episódio 2 – O Homem vai ao Exército – Parte II (FINAL)
  2. Episódio 6 – Memória no Tempo
  3. Episódio 18 – Como Nasceu o Dia de Finados?
  4. Episódio 37 – Fliperama. Sobrenome: Febre
  5. Episódio 43 – A gota de sangue na presa do amável vampiro
  6. Episódio 52 – Você é um lutador?
  7. Episódio 55 – Três maneiras de fazer um encontro romântico dar errado (Para homens)
  8. Episódio 61 – A História do Espelho
  9. Episódio 65 – O que um homem realmente deve ter
  10. Episódio 67 – Você quer a imortalidade?
  del.icio.us this!

1 Response so far »

  1. 1

    Buu said,

    abril 18, 2010 @ 18:44

    Cara, cada foto linda que vc tem por aqui!*o*

    ———–

    http://vashat.blogspot.com/

    Comenta?Ou segue? vc que sabe!:DD

Comment RSS · TrackBack URI

Say your words

Get Adobe Flash playerPlugin by wpburn.com wordpress themes