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Episódio 70 – Sobre Salvador Abílio

“Eu nunca gostei muito dos portugueses, mas Salvador Abílio se destacou. Foi, sem dúvidas, a maior jóia dos anos setenta. Eu sinceramente achei que essa década passaria em blanc pra mim, mas eu estava errado.

Foi no começo dos anos 90 que eu ouvi falar sobre este lusitano, professor de História. Um dos meus contatos em São Paulo me contou que o “colonizador” seria um ótimo, como os italianos diriam, consiglieri. Nunca gostei de conselheiros, eles escutam tudo, sabem tudo e no fim podem te trair. Dessa vez eu havia errado.

Neste tempo, o Regime Militar aqui no Brasil estava montado em sua decadência com ares de prosperidade, e nos meados da década, o petróleo havia “secado” de nosso mundo. Embora não pareça, isso conseguiu até mesmo abalar nossos joguinhos. Não porque não podíamos ir usar nossas latas moveis, e sim porque até mesmo os Familiares do Oriente Médio nos são confusos. Desta forma, por que eu deveria me importar com algum letrado e pior, de Portugal?

De qualquer forma, o que me era esperado: Ele apenas guiava seus estudantes para lutarem contra o regime. Um revolucionário de óculos, en fait.

Mas então, eis que me surge a surpresa: Ele sabia sobre nós. Não que isso fosse um problema, afinal, nós Familiares não existimos (chamar-me de vampiro não soa como uma boa idéia pra mim). Mesmo sozinho aquele cinquentão possuía força de vontade necessária pra agüentar todos os repúdios e seguir em frente, muitas vezes por certa sorte, apenas desvendando que seus fatos eram farsas.

O melhor: Ele nem sequer nos considerava… “Vampiros”… E sim, uma evolução humana. Ele apenas sabia que vivíamos de algo que apenas os humanos poderiam fornecer. Como ele descobriu isso? Touchè, agora você sabe o motivo do meu interesse.

Não tardei em seguir até São Paulo.

Chegando à cidade, me adiantei em ir até a USP (Universidade de São Paulo). Antes mesmo de me alocar em algum dos hotéis. Fui assistir uma aula, e no fundo, eu ainda queria que toda essa expectativa fosse mentira. Eu realmente não gostava de dividir sala com aqueles neuróticos politizados, que hoje são pais de família que orgulham-se de seu passado “lutador”. Se eles soubessem a verdade…

Eis que na sala, entra um homem usando aqueles óculos grandes característicos daquela década e com prostrados cabelos castanhos lançados para trás, deixando uma grande entrada capilar. Embora mortal, ele realmente parecia um daqueles vampiros de filme, creio eu devido à uma vida enfurnada no fundo de alguma sala tendo companhia apenas os fungos dos livros. Sua pele era pálida e seu rosto cansado, como se houvesse muito penado ao longo da vida. Sua amarrotada camisa social e sapatos acima do tamanho completavam o decadente visual.

Ele puxou sua cadeira universitária e sentou. Seu cuidado em organizar os livros sobre a mesa e escorar sua mala aos pés da cadeira me chamaram a atenção: Fazia isso como um assassino em série ao limpar a cena do crime. Ajeitou os óculos, umedeceu os lábios, e começou a explicar sua aula que sinceramente, não nos é interessante. O que realmente importava, era seu conhecimento, seu cuidado, sua vontade, e principalmente: Paixão e eficácia.

Ele era um candidato perfeito.

No fim da aula, fui até ele e ofereci uma proposta de emprego. É claro que tive de usar o que as trevas me deu. Apenas fite seus olhos nos olhos dele, e a mágica acontece: 20h em ponto ele estava lá. Na verdade, 19:59. Ele havia me surpreendido, ainda mais sendo Português. Ele não era tão burro, como as piadas sempre disseram.

Ele entrou acanhado, mas não penso ter sido pelo ambiente fechado, e sim por sua real natureza. Certifiquei-me de deixar aquele ambiente o mais ideal possível: Luzes claras, para transmitirem maior confiança. Cores em branco, para que não fosse ameaçador e principalmente: Deixei a chave da porta à vista e o recepcionei com um sorriso.

Ofereci vinho e ele não aceitou, disse que não bebia coisas alcoólicas. Imagina se ele descobrisse o que ele acabaria bebendo pro resto de sua não-vida? De toda forma, manti a farsa do emprego. Disse que ele seria pesquisador em uma empresa privada e claro, voltei a usar aquilo que “Deus me deu” para que ele não duvidasse nem perguntasse muito. O ponto não era esse: O ponto era descobrir qual a sua motivação e nível de interesses.

Em meio às perguntas, descobri o que eu queria: Seu interesse pelo dinheiro não era para que esbaldasse com as futilidades da vida, e sim poder melhorar sua pesquisa a cerca de… nós. Sua motivação, simples: Ele havia sido refeição de algum Familiar lusitano e por falha deste – principiante na nova vida, eu creio – ele não teve sua mente totalmente apagada.

Quando ainda jovem, no alto dos seus 18 anos, apenas se lembra de um amigo da universidade se vangloriando de sua condição em uma festa em um acampamento e bebendo dele e de muitos outros, que não se lembram. Ele não se lembra de ter seu sangue bebido, apenas se recorda da ótima sensação que sentiu e de um grande cansaço depois. Seus amigos daquele tempo os consideraram louco e se afastaram, e o Familiar que fez isso, desapareceu. Creio eu que tenha sido morto pelo grande erro de espalhar a todos sua real forma.

Ele apenas não relacionou isso tudo a vampiros por conta dos clichês disseminados por livros e filmes – para ele, sanguessugas andam apenas à noite. O mais merveilleux, é que ele nem deveria estar nesse acampamento. Salvador nem em sua juventude havia sido um homem popular, e para tornar-se isso e descobrir o que foi “aquilo”, ele dedicou sua vida. É evidente que ele apenas citou a parte de que gostaria do conhecimento sobre nós, seu desejo por ser reconhecido só seria dito por seus gestos corporais. Terminei a entrevista falando que entraria em contato com ele em dois meses.

Eu poderia naquele momento ter saído de trás da cortina, mas não poderia estragar a relação descobridor-descoberta nele. Eu precisava ver como ele na condição de mortal realizado lidaria com isso. Então, me certifiquei de me alimentar apenas de seus alunos. Com o tempo eles foram se tornando fracos e pálidos, nitidamente algo estava acontecendo, mas esta é a era dos fatos e no máximo imaginariam que seria alguma droga. Entretanto, em dado momento, não ocultei os furos no pescoço de um estudante. Pronto, Abílio ficou curioso.

Abílio começou a observar os outros estudantes, às vezes até os seguindo ou os observando. Imagino que ele estivesse pensando em algum aluno como o responsável pelos furos, por conta do seu passado, como se fosse uma espécie de “Evolução humana que acontece apenas em universidades”.

Dois meses se passaram. Foi um teatrinho interessante, por reconhecer o quanto ele era esforçado e focado. Ele, sem que percebesse, evidenciou todas as suas qualidades. Era hora de me revelar. Em um dia em que ele dava aulas a noite, me certifiquei de abduzir um aluno aleatório de sua turma. Me alimentei dele e deixei o jovem desmaiado próximo ao seu velho Ford, no estacionamento sem apagar sua mente.

Quando Salvador o acudia, surgi ali criando uma espécie de tentativa de escapatória, de forma que ele pudesse me ver apenas. Corri para o meu carro. Abílio levou o universitário para o hospital em seu próprio carro, afinal, ele não chamaria a ambulância e perderia a chance de não constatar se aquele caso se tratava do que ele viveu para pesquisar. Lá o interrogou do acontecido. Embora parecesse idiota, a última coisa que ele poderia cometer seriam os deslizes pertencentes aos ineficazes. Bem, foi nisso que eu acreditei ao assistir.

Você pode até não acreditar no que será dito nas próximas linhas, mas ao aproximar-se do hospital, Abílio virou para sua casa como se uma idéia melhor houvesse surgido em sua mente. Ele começou a estudar o jovem, pouco se importando com sua saúde. Excelente, ele não era tão distante de nós! Onde eu via um carneiro, brotou um lobo. Eu iria me revelar rápido, caso ele liberasse o jovem, mas o garoto morreu e ele não se importou. Parecia não existir no mundo mais a polícia, ou até mesmo os pais do garoto – que aparentemente, tem a minha suposta idade. Tudo pela ciência, eu diria.

“Dois meses se passaram, aqui estou”, disse eu ao encontrá-lo em sua casa. Foi evidente sua surpresa, ele inclusive demorou a acreditar no que acontecia. Ele estava convicto que eu era apenas um empregador que viu a situação e tentou intervir. Tive de explicar tudo a ele, mostrar e, evidentemente, dar o dom a ele. Se um mortal visse as cenas seguintes, o chamaria de psicopata: O jovem defunto foi sua primeira refeição e acho isso um erro visto que o paladar não é dos melhores, mas que posso fazer?

Ele esteve atento durante todo o processo, como se a sua vida fosse toda destinada a criar um grande relatório sobre nós e ele, embora ele não se considerasse um membro ainda. Até mesmo continuou a dar aulas! Tornou-se conselheiro de diversos Familiares e um grande pesquisador sobre nós, e pude observar seu desempenho cá do Rio de Janeiro.

A não-vida o deu certos prazeres: Agora ele realmente dava aulas com vontade. Vivia a vida, ou morte, como queira chamar. Nos natais ele me ligava agradecendo o “presente”. É, o natal ainda lhe era importante, muito humano de sua parte. Principalmente quando ele fazia de seus próprios estudantes, sua ceia.

Não mais que duas décadas, tudo começou a ruir. Sua decadência foi triste, a meu ver. Seria até digna de um filme da Disney. Embora ainda fosse um pesquisador, Salvador Abílio perdeu seus parentes e estimados, e nem mesmo podia se mostrar aos seus estudantes, nem dar aula. Pode-se imaginar isso quando não há mais ninguém para lembrar de você. Quando, em toda sua vida, não houveram tantos amigos ou sequer colegas. Mesmo sendo um Familiar, ele ainda precisava dos laços de sua família e quando todos se foram, ele já não havia mais onde se segurar. Eu acho isso estranho até hoje, algo como mal explicado, mas creio que isso deriva de sua psique.

Nós, que realmente víamos nele uma grande e útil ferramenta, mexemos as cordas para que ele pudesse descobrir o paradeiro do Familiar que deu início a tudo isso. Soube que o homem realmente havia sido morto por revelar não só a ele, mas a muitos outros grupos, o que ele era. Pelo o que sei, foi estaqueado e queimado até os ossos.

Esta foi a nossa tentativa de fazê-lo compreender o significado da não-vida e principalmente, dar uma nova conquista a ele. Já que era humano, provavelmente ainda possuía os mesmos sentimentos que eles em relação à satisfação pessoal. Salvador Abílio voltou ao seu estágio de viver por nada, até que meses depois, disse ter tido a maior idéia de sua vida.

Publicou aos nossos algumas descobertas, que de fato nos foi muito útil. De alguma forma, todos nós já não tínhamos mais paciência com ele e já sabíamos que hora ou outra ele iria perecer, até víamos estas anotações que ele nos deu como uma despedida. Eu só não imaginava como seria sua rovina.

No fim? Bem, ele resolveu ter a última experiência possível o que não só provou o quanto ele era cientifico, mas louco também: Salvador Abílio incendiou o próprio refúgio e provavelmente foi tomado pelas chamas dançando e rindo.
Salvador Abílio se tornou cinzas ao vento.

Este foi o fim de um dos mais belos mortais que trouxe até nós. Sinto que empreguei o esforço necessário, e que se fizesse d’outra forma teria apenas adiantado este resultado. Talvez o que ele tenha descoberto, outros já teriam sabido e guardado para si. Se eu tivesse previsto isto desde o começo, não o teria imortalizado e assim ele poderia ser um destes mortais que muito sabem e nós, com certo pesar, temos de destruir.

Até onde se limita a vontade de um homem? Talvez eu tenha que retirar todos os meus pensamentos sobre portugueses.
Eu não sei, e isto, eu acho que Salvador Abílio apenas descobriu após o fim. Nem que seja por seus quatro segundos finais.”

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5 Responses so far »

  1. 1

    Fábio Ferreira said,

    abril 18, 2010 @ 2:41

    Um belo texto, um belo post bem traçado pela inspiração…

  2. 2

    Fabiano said,

    abril 18, 2010 @ 18:34

    Eu não conhecia absolutamente nada de Salvador Abílio, uma bela história, bem escrita e instigante.

  3. 3

    Buu said,

    abril 18, 2010 @ 18:37

    Adorei a foto (amo fotografia), o texto é muito interessante tbm…

    –x–
    http://vashat.blogspot.com/
    Comenta ae, e se der, segue tbm!^^

  4. 4

    deborestt said,

    abril 18, 2010 @ 18:38

    tem talento viu velhinhooss

  5. 5

    Conrado Cooper said,

    abril 18, 2010 @ 18:57

    Muito bom uhauahuahuahauhauha parabéns! http://www.dataclipe.blogspot.com esteve aqui e espera seu comentário!

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