Episódio 73 – Ladies Night

A música estava alta e jovens dançavam alucinadamente no salão circular. As luzes em tons básicos e claros que corriam pela pista de dança pintando o corpo de mulheres que usavam maquiagem forte e de moleques fazendo caras e bocas com seus músculos à vista. O cheiro de cigarro e álcool subia até as mais entupidas narinas. Os funcionários dançam com suas garrafas nos bares periféricos e os seguranças transpassavam quase que de forma invisível por todos e observava suas ações usando seus ternos e microfones colados à boca.
Falas ao ouvido, risos escandalosos, vestidos abanando. Nas televisões espalhadas formas alucinógenas, mulheres quase inumanas vestindo roupas infantis dançavam em quatro pedestais posicionados. No fim da sala, um palco onde o DJ dançava e tocava usando grandes fones, teclando coisas em um note book Apple. Em espaços de tempo aleatórios, uma fumaça de efeito especial subia junto de um cheiro doce criando um nevoeiro a ser aspirado.
Na porta que dividia entre lounge e dance estavam dois homens quase como esfinges. O da esquerda tinha em média 1,89 e estava estático, seu cabelo encaracolado e castanho até o meio das costas permanecia parado também, usava um blazer preto com alguns fios de cabelo escondendo por baixo uma camisa branca com um Ás de Espada preto e parte de sua quase surrada calça jeans preta. Os olhos eram fundos e negros como uma noite apocalíptica, sua pele como se fosse esculpida em marfim formando uma face ossuda e comprida, com uma boca arqueada. Sua expressão era como de um jogador, um sorriso infame e um olhar que caminhava por cada pessoa semelhante ao que câmeras de vigilância fazem e nada congruente com sua aparente idade – uns 27 anos no máximo.
Ao seu lado, um garoto que aparentava os 20, mesmo com seus 1,79m. Corte de cabelo curto e também negro, penteado para trás. Sua pele era menos pálida, e seu olhar tentava nitidamente imitar o do parceiro como duas bolas negras deslizando em um espaço branco. Seu rosto era um pouco quadrado, típico italiano. Uma mão dele repousava no bolso direito, a outra batendo na coxa no ritmo da música com uma vibrante pulseira verde claro. Usava uma camisa social rósea dobrada até o antebraço e aberta até metade do tórax mostrando um peito com alguns raros e lisos fios de cabelo e um tórax exercitado. Sua calça também era jeans e negra, mas nada batida. Seu sapato, bem engraxado, batia ao chão seguindo a melodia.
- Me repasse os comandos, garoto. – Falou em tom de autoridade o cabeludo.
- Me alimentar…
- Esse é um.
- Apresenta-la a você.
- Esse é outro. – Confirmou, sem olhar o jovem.
- Hmmm… Levar ela sem que ninguém perceba.
- e?
- Bem… hmm… – O mais jovem olhou pra baixo tentando buscar a resposta.
- Divertir-se, criança. Esse é os eu último teste. – Disse a ultima frase virando a cabeça e olhando nos olhos do menino.
O jovem saiu andando como um cão farejador em meio às outras pessoas que regulavam idade com ele, era lógico que ele necessitava da validação do seu capitão. Observava tudo e todos, analisando-os. Ao som de alguma música eletrônica russa e ácida, o menino andava olhando ao redor, com uma fisionomia calma daquelas que se vê em conquistadores de filmes. Logo ele se misturou à aglomeração da pista de dança e começou a dançar, notando uma bronzeada mulher de cabelos castanhos com mechas louras com olhos de coelho junto de amigas usando carregadas pinturas no rosto.
Era apenas ele e ele. Sem alternativas, restou ir. A mão dele tocou no ombro, bem em cima da alça do vestido preto quase formal. A mulher o olhou e não havia nenhuma conhecida dela por perto, pelos menos aparentemente. Era uma das exigências do plano e eles logo se apresentaram. Para ele, qualquer tipo de conquista nestes lugares deveria ser feito bem rápido. Algumas frases trocadas dentre os ouvidos, uns toques no corpo, alguns olhares e logo os dois estavam entrelaçando suas línguas antes mesmo que ela pudesse demonstrar interesse demais.
O aprendiz sorria enquanto a beijava, satisfeito em poder agradar o seu senhor. Após o beijo, ela manteve um intenso contato visual com ele.
- Preciso voltar para os meus amigos e quero te apresentar a eles. – Sorriu de leve, acariciou seus cabelos e entrelaçou seus dedos à mão macia como veludo da recém-adulta.
- Tudo bem, vou falar com minha amiga.
Ela ia virar para a amiga que estava agarrada com algum playboy. O garoto começou a dançar animado, como se tivesse ganhado uma batalha muito difícil, quase se desligando de seu propósito. Ele pensou um pouco, como se um raio tivesse se chocado com sua psique. Ele virou-se para sua mulher e apressado disse:
- Deixe sua amiga aí, não vamos demorar. Você não quer atrapalhar a pegação alheia, não é?
Antes que ela terminasse sua resposta positiva, ele tirou a dama dali para que ninguém notasse. O casal foi de mãos dadas até a escadaria que levava a área VIP. O segurança confirmou a pulseira verde claro no pulso dele, e permitiu que os dois subissem. Era uma cortesia cara, que permitia levar uma companhia para os aposentos superiores.
O segundo andar consistia em várias portas, bar reservado e uma varanda que permitia uma vista superior da pista de dança. Estava repleta de casais debruçados rebolando ao ritmo, cuidando mais de seus baldes com garrafas vodka e gelo do que de suas próprias vidas.
Ali estavam os jovens mais ricos da festa e os que mais queriam aparecer como tais. O plano foi se executando, seu mentor estaria em uma das salas reservadas dali que custavam no mínino 2.000 reais. Algo destinado à grupos, mas seu mestre parecia ter dinheiro o suficiente pra alugar apenas para si mesmo.
A criança tocou a porta com uma mão, e a outra ele segurava pela mão de sua ficante que tentava ajeitar a maquiagem para não parecer desarrumada. A porta se abriu e ele entrou com a garota. A porta de madeira pesada se fechou em um tom grave, amenizando o som do lado de fora. A luz estava baixa, e tinha mais alguém sentado no canto. Parecia estar dormindo. A sala era confortável com pequenas janelas fechadas que mostravam ao pátio do lado de fora onde uma chuva caía fazendo brilhar como cristais a iluminação multicolorida do lado de fora. O ar condicionado estava ameno, talvez para manter o clima das bebidas dispostas sobre uma pouco fora do lugar mesa piquenique de plástico.
Seu mentor estava sentado em uma cadeira de alumínio, que estava com o encosto virado para frente do seu tórax. Ele estava debruçado a ela.
- Este é o meu amigo, Francis. Esta é Brenda, Francis. – Disse o garoto, apresentando os dois com uma expressão triunfante.
- Brenda… Esse é um bom nome. Venha aqui, Brenda. – Francis esticou a sua mão pálida e com dedos longos e mandou um olhar terno.
O pupilo observou com orgulho, enquanto Brenda apertava a mão de Francis. Um raio de curiosidade cruzou a expressão dela. Ela começou a imaginar as possibilidades que poderia provar tendo encontrado o par certo.
- Brenda, me faça um favor. – O ossudo homem olhou a menina no fundo dos olhos. Estava usando aquele olhar que seu pupilo tanto adorava, mas nunca conseguiu reproduzir. Parecia que todos o obedeciam quando ele agia daquela forma.
- Pode falar! – solicita.
- Acorde o meu amigo ali, por favor.
O aprendiz não se lembrava de mais alguém na companhia deles. Brenda caminhou meio que tateando para não esbarrar em nada na sala. Quando ela se aproximou do homem sentado, pode vê-lo. Era louro, parecia um anjo repousando. Usava uma camisa pólo preta com o nome de sua marca escrita, seu corpo estava pálido. Os olhos fechados, a boca descolorada, as mãos juntas dentre as pernas. Usava uma calça jeans cinza meio larga e tênis, roupa padrão da festa. Provavelmente esteve nela e bebeu demais.
A jovem atraente começou a balançar o garoto, olhando para trás para ver o recém-conhecido com um sorriso sem graça, como se estivesse fazendo um trabalho complicado. Quando ela percebeu, a cabeça do homem havia se encaixado entre seus latentes seios como se procurasse conforto. Ela se assustou, afastando-se. O garoto caiu no chão abruptamente por não ter mais apoio. Brenda não pode evitar e gritou de susto, levando seus dedos com unhas pintadas à francesinha até a boca. Já não mais havia rubor sanguíneo naquele corpo agora descoberto. Havia dois furos em seu pescoço, tímidos dentre seu cabelo dourado.
Brenda poderia ter corrido, ou gritado mais, mas aquela gelada mão tocou seu ombro. Ela o olhou de soslaio e viu seu rosto pálido como o do defunto, com cabelos encaracolados deslizando pelo rosto e tocando em sua pele. Ele falou algo em seu ouvido, e a garota não pode se mover. Com seu corpo tremendo, ela olhou para o outro lado e viu uma expressão de espanto naquele que havia acabado de beijar sua boca que ela levou tantos minutos para passar o batom, procurando socorro.
Por instantes, a garota pensou que iria fazer parte de algo realmente excitante. Agora, não mais. Ela estava dominada por medo, parecia um bicho acuado. Lembrava-se dos conselhos de sua mãe divorciada. O cheiro de álcool e cigarros havia dado lugar para um quase imperceptível aroma ferroso de sangue. Ela tentava rezar para Deus, mas ele parecia estar ocupado demais para atendê-la.
- O que você está fazendo, Francis? – Disse ele dando uns passos a frente, em dúvida se aquilo fazia parte de todo o combinado.
- Criança, esta garota é sua ainda. É sua presa, e eu respeito o rebanho alheio. Esta é uma das novas regras que você vai aprender. – Falou Francis, sem virar para trás, mantendo-se na mesma posição.
De repente, Francis desferiu um golpe com o punho fechado bem no alto da cabeça da moça como se abatesse a um bovino. Ouviu-se um estalo surdo quando ela se chocou por cima do morto. Ninguém poderia ouvir nada, estavam todos cegos demais com suas próprias questões pessoais e surdos pela música que explodia na pista.
O aluno deu uns passos para trás e Francis virou-se pra ele. O menino congelou ao encarar seu mentor. Havia um brilho de pecado nos olhos dele, era parecido com aquele olhar que ele tanto admirava.
- O que você está fazendo? – Balbuciou a criança, baixinho.
- Te salvando desta existência miserável, mais uma vez. – Francis voltou a caminhar com seus movimentos quase felinos.
Ele poderia correr dali em disparada, mas não conseguia. Seu coração começou a bater forte e ele foi tomado por um sentimento de arrependimento por ter se alistado naquele curso de sedução. Há pouco estava tão feliz por ter deixado de ser aquele tímido estudante fracassado que apenas sonhava, e tentava achar solução naqueles livros místicos.
Após sua mudança, todas as mulheres comentavam sobre ele com certa luxuria em suas bocas. Havia até mesmo criado uma lista com o nome de todas aquelas que o desprezaram ao longo de sua vida adolescente, para que pudesse conquistá-las uma a uma e honrar sua condição de homem. A vida estava melhor, um pouco fútil, mas ele se sentia completo. Não mais tinha acessos de mau humor, e nunca mais viu necessidade em escrever aqueles poemas tristes que fariam apenas a sua mãe chorar.
As coisas pareciam bagunçadas agora. A cada passo de Francis, seu coração batia mais rápido.
- Você não vai voltar atrás agora. Se você pensou que ninguém te observava, pense novamente. Estou prestes a te tornar o maior dos predadores, você perecerá no topo da escala alimentar. Isso não é poético?
O pupilo encheu-se por um sentimento de curiosidade misturado com um nervoso nunca sentido, nem mesmo no vestibular ou na primeira transa.
- Eu não sei do que você está falando… – Ele tremia o suficiente para que sua dicção sofresse danos.
- Fique tranqüilo, minha criança. Você terá muito tempo para aprender. E quando digo muito tempo, é mais que você possa sequer imaginar.
E Francis chegou até o garoto, tocando em seu rosto com suas mãos pálidas. O garoto nem conseguia piscar.
A festa continuou como haveria de ser, com os seguranças repreendendo brigas derivadas pela bebida, comemorações vazias, mulheres ajeitando seus decotes no banheiro, cocaína sendo cheirada e êxtase sendo provado. Naquele dia, a criança voltaria para casa mais tarde do que poderia imaginar.
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Janin said,
junho 6, 2010 @ 22:59
tive preguiça de ler! resolvi ler um texto do gilto ao invés disso. mas eu volto. juro.
Mr.Cogu said,
junho 7, 2010 @ 2:12
HAHAHAHAHAHA Gilton é O caaara!