Episódio 87 – Mafia: Pecado no Paraíso Perdido Pt.1


Prelúdio

Era uma terça-feira fria de inverno em Lost Heaven. Os carros corriam pelas ruas, os homens ajeitavam suas boinas enquanto iam para os seus trabalhos e as mulheres levavam as filhas para tomar sorvete. Na estação de Giuliano Street, sai do trem um homem de terno escuro e alinhado, escondido por um casaco grafite, usando um chapéu fedora cor de pele.

Seus olhos eram claros como uma gema de água e seu rosto com traços italianos, finos, olivado. Uma sombra, derivada da cortada barba, contratava-se com o tom avermelhado de sua face. Desceu as escadas em pique acelerado, chegando à calçada e esperando um táxi passar. Olhou com certa nostalgia para o antigo automóvel, uma versão da década de 30. Finalmente atravessou, caminhando calmamente até um pequeno café.

Entrou, observando o local. Parecia confortável e discreto, todos cuidavam de seus próprios assuntos. Observou o carrancudo barman limpando o balcão, alguns homens conversando sobre jogos, próximos há uns quadros de carros clássicos. Lançou um olhar até o fim do bar e observou sentado um homem de cabelos castanho claro, descendência irlandesa, média idade, usando uma camisa social branca. Estava de costas, olhando impacientemente para o lado de fora. Caminhou até ele, próximo à lareira.

- Detetive Norman? Posso me sentar?

Normal fez um gesto com a mão, indicando que poderia. O homem retirou seu casaco e pendurou à parede, colocando logo em seguida o seu chapéu. Seu cabelo era penteado com gel para trás negro o suficiente para brilhar. Nem sequer precisaria do agasalho, mas preferiu usa-lo naquele dia. Sentou-se no banco de estofado vermelho. A mesa estava com dois cinzeiros e uma xícara estava próxima ao detetive, já vazia. Haviam marcado de se encontrar naquela manhã.

- Me desculpe pelo atraso, mas não queria que ninguém me visse… Se é que me entende.

Uma bonita garçonete aproximou-se, seus cabelos eram louros e curtos, cacheados com o uso de rolos. Seu avental era branco, um pouco sujo de molho, e sua blusa preta.

- O que posso trazer, senhor?

- Apenas um café. – Falou o recém-chegado.

- Já trago! – E a garçonete saiu.

- Não tenho o costume de sentar com pessoas como você. – Norman havia o desafiado. Era um desses homens da antiga academia, um durão.

- Tenho uma proposta para você, detetive. – Atalhou, sem olhar nos olhos do policial.

- Não sou um homem de negócios, e mesmo que fosse, não faria acordos com seu tipo. – O detetive testava a reatividade do homem. Falava e permanecia imóvel, encostado no banco.

- Eu também não faço negócios com pessoas como você. Mas esse é um acordo um pouco estranho. Bom para você e seus superiores, e bom para mim. Considere como uma troca. – explicou.

- Troca?

- Bem, vamos apenas dizer que eu tenho uma alta posição em uma organização ilegal. É o tipo de organização que os seus adorariam saber de tudo. E eu, por outro lado, tenho certos motivos para não querer…

- Seu café, senhor. – Interrompeu a garçonete, trazendo uma xícara de café quente e preto.

- Obrigado.

- Tenho meus motivos pessoas para eu não querer estar associado com essa organização. E não é fácil deixar este ramo, se é que me entende… – Prosseguiu.

- Eu sei aonde você quer chegar. Você vai levar um tiro na cabeça se não desaparecer rápido, certo? – E deu um pequeno sorriso sarcástico para o homem.

- Não é apenas este o motivo. Você tem crianças, detetive? – Fez uma pergunta retórica e desafiadora. – Eu tenho mulher e filha.  Não quero que elas tenham problemas por causa de mim.

- É? Bem, eu não vou proteger qualq            uer bandidinho arrependido. Você deveria ter pensado nas crianças antes, porque eu…

- Certo, certo… – Interrompeu o detetive. – Escute, eu não quero algo por nada, então segue o trato: O nome Salieri lhe diz algo? – Fitou os olhos do velho.

- Salieri?! Pode apostar que sim! Você tem algo em comum com ele? – Interessado, desencostou-se e aproximou-se do homem.

- Pode-se dizer que sim. Eu trabalhei para ele por muitos anos. Agora ele quer me apagar. Se você proteger minha família e a mim, eu lhe direi tudo. Nomes, datas, contas, tudo. O suficiente para colocá-lo numa cela e jogar a chave fora.

- Eu não sou o Papai Noel. Se eu vou ao chefe com isso, eu preciso saber de tudo o que você sabe, e eu tenho que ter a certeza de que você testemunhará tudo na corte.

- Sim. Se você não tiver pressa, lhe contarei toda a minha história, e tudo o que lidei quando trabalhei por todos estes anos.

- Está certo, eu tenho tempo, estou ouvindo… – E recostou, encarando o homem.

Capitulo 1

Outono de 1930

Thomas Angelo era um taxista. Mais um descendente de italianos com pouco dinheiro enfurnado em uma condição precária de vida. Trabalhava dia e noite, e para ele, o táxi era sua vida. De fato, Tommy como era chamado, era feliz por estar trabalhando. Aquele era um tempo ruim para se viver, mas Tommy sabia que havia gente pior. Sua mãe não se orgulharia tanto de seu emprego, mas era melhor que estar parado, sendo um vagabundo como todos os seus vizinhos.

A Grande Depressão assolava os Estados Unidos e não foi diferente com Lost Heaven. O nome foi dado pelos colonizadores por considerar justamente um paraíso perdido, graças à suas efusividades por descoberto estas terras. O tempo passou e não se tornou bem isso. A lei parecia ineficaz certas vezes, dançando de acordo com a música criada pelo crime.

Em uma noite fresca de sexta-feira, Tommy dava um descanso de seu trabalho nas proximidades do aeroporto. Foi uma noite cansativa levando solteiros para as casas de má fama para que pudessem beber escondidos, madames que iam encontrar seus amantes, ou homens cansados de seus serviços. Pela dificuldade daqueles anos, era difícil receber uma gorjeta avantajada. Saía de seu táxi, ajeitando sua barata boina que a maior parte dos homens usava naquela época. Usava um surrado paletó de poliéster, mal arrumado. Sua barba estava por fazer. Pelo avançar da hora, cerca das 23h, poucos carros cruzavam as ruas.

Acendeu um cigarro, se deliciava com ele. Agachou-se para conferir as calotas, estava sempre arrumando seu carro, polindo-o. Era sua ferramenta de trabalho, e custava caro. Depois recostou-se na traseira do carro, escorando-se na maleta e dando longas tragadas. Pensava sobre sua vida, seu dinheiro, o que poderia fazer.

Naquele bairro, dois Schubert Six corriam a toda velocidade pelas ruas escuras de Lost Heaven, furavam sinais vermelhos, subiam na calçada. Era mais uma de várias brigas entre gangues que assolava aquela cidade. Era um tempo em que os carcamanos ganhavam seu troco contrabandeando as coisas proibidas.

Um Schubert branco fugia a toda de outro avermelhado do mesmo modelo. O automóvel fugitivo tinha dois passageiros, e um deles atirava contra o outro que tinha três. Braços voavam para fora das janelas, atirando um contra o outro. Vestiam terno, eram sem dúvida, mafiosos.

O carro branco deslizou pela rua e seguiu queimando pneus, o de trás não consegue virar a tempo, parando de frente para um poste. Deu ré e voltou a acompanha-lo. Quando perderam o controle do carro, bateram com força em uma parede, derrubando algumas latas de lixo. Não viram outro jeito a não ser continuar a pé.

O motorista tinha o cabelo preto penteado para trás a fim de esconder-lhe uma pequena calvície, tinha bochechas largas. Seus traços eram clássicos do sul da Itália, caracterizado também por sua pele branca avermelhada. Seu terno estava aberto, usava uma gravata borboleta e uma camisa social azul por dentro. Tinha em mãos uma pistola, e movimentava-a chamando o outro para fora.

O passageiro era um italiano entroncado, de fisionomia mal humorada. Sua estatura não era tão grande, mas aumentava um pouco com sua postura e grande quantidade de cabelo bem penteado para trás, como o do comparsa. Seu terno era cinza, e andava com dificuldade. Havia se machucado na batida. Os dois dispararam a pé e ao virar a curva, depararam-se com um táxi e um homem. Era Thomas.

Tommy levou um grande susto com aquela batida e arrancou pra frente para tentar ver o que estava acontecendo, segurando seu cigarro nos dedos. Foi surpreendido pelo motorista do carro, que deu uma volta para trás, impaciente.

- Sam! Eles me pegaram, droga… – Falou o ferido.

- Se levante e venha… Tem um táxi, ficaremos bem. – Sam tentou acalmar o amigo, mas seu nervosismo transparecia deixando sua voz vacilante.

Sam, o motorista, voltou correndo e fitou o taxista, apontando-o sua arma e aproximando-se. O coração de Angelo trancou-se e começou a bater violentamente, adrenalina era lançada em seu corpo. No impacto do momento, deixou cair seu cigarro. Deu-o um empurrão pelo pescoço, fazendo o homem andar de ponta cabeça em direção da porta.

O ferido surgiu na esquina, escorando-se na parede e também segurando uma pistola. Caiu de joelhos e ergue-se com pouca dificuldade. Thomas sentou no carro, e no banco do carona entrou o outro. Sam enfiou-se no banco de trás, ficando atrás do taxista. Olhava toda hora pelo vidro de trás.

- Pra onde?

- Qualquer lugar! Rápido… E eu espero que você seja muito rápido… Mais rápido que o Sam aqui! – Apontando a arma para a cabeça dele.

Acelerou a toda, como um morcego fugindo do inferno. Precisava fazer isso por dois motivos: Livrar-se daqueles novos clientes e de quem o perseguia. Tinha que obedecer aqueles criminosos ou acabaria morto. Embora sua vida não fosse uma das melhores, preferiria estar respirando.

Foi difícil, as ruas de Hoboken eram estreitas e os bondes atrapalhavam. O outro veículo aproximou-se e os dois passageiros começaram a atirar, foram respondidos por mais tiros. O vidro de trás se espatifou e o barulho das balas ricocheteando na lata dava ânsia de vômito em Tommy. Os homens ameaçavam-no, xingando e o mandando acelerar. Apenas quando chegou em New Ark, depois dos trilhos do trem, despistou os pistoleiros.

- Ótimo! Conseguimos! – Comemorou

- Bom trabalho, irmão. Agora nos leve ao bar do Salieri. Eu mostro o caminho pra você. – Disse o ferido.

Tommy relaxou e a aprovação deles o acalmava. Mas só conseguiria ficar em paz quando os deixasse até o destino final. O nome Salieri não lhe era estranho, talvez tivesse ouvido no rádio, no entanto preferiria nem sequer saber a origem. Suspirou, e seguiu em direção à ponte que ligava ao outro lado da cidade. Chegou finalmente na Pequena Itália. Sua mãe sempre quis morar neste bairro, mas jamais conseguira o dinheiro para mudar-se.

- Finalmente, em casa. – Disse Sam, tranqüilo.

Tommy parou o carro na esquina, mas o manteve ligado.

- Espere aqui, amigo. Sam vai pegar alguma coisinha com o Sr. Salieri. – Disse o outro, abrindo a porta e saindo ao mesmo tempo que Sam.

Tommy ficou nervoso, mas não podia sair dali. No fim das contas, seu carro estava quebrado. Esperava algum dinheiro deles, imaginara que seria essa a tal coisinha. Desligou seu táxi. Do lado de fora Sam espertou seu parceiro aproximar-se e os dois seguiram lentamente até um pequeno café. Ouvia o som de cachorros vadios latindo e bebês chorando. Poucos carros passavam pela rua a esta hora da madrugada.

Havia duas vitrines escritas Salieri’s e um pequeno toldo amarelo. Dois homens mal encarados conversavam na porta e cumprimentaram a dupla com um aceno de cabeça. Usavam ternos alinhados e um deles um chapéu fedora. Os dois entraram, sumindo. O taxista relaxou no banco do carro e tremulo tirou um cigarro e levou a boca. Olhou para o café enquanto acendia seu fumo, e o homem de chapéu comentou algo com o outro, e os dois viraram-se o observando. Sentiu um frio na espinha, uma vontade de fugir dali. Olhou para outra direção tragando a fumaça.

A porta abriu, tocando a campainha. Sam saía do café e seu coração começava a bater forte. A dupla do lado de fora começou a acompanhá-lo com o olhar. Aproximava-se cada vez mais rápido e levou sua mão ao interior do terno. Tommy caçou suas chaves e, tremendo muito, levou ao carro e começou a ligá-lo. Imaginava que ele tiraria uma arma de seu bolso e o apagaria por ser uma testemunha.

Quando Sam chegou à janela do carro, tirou um envelope branco. A boca de Tommy ficou seca e sua face voltou a ter rubor sangüíneo, suas mãos esquentaram-se novamente.

- Sr. Salieri gostaria de agradecer a você, assim como eu e Paulie. – Disse em tom baixo e olhou em volta, para se certificar de que ninguém indevido os observava. – É uma compensação pelos danos ao seu carro e por seus serviços. Deve ser o suficiente. – E deu o envelope nas mãos de Angelo.

- Sim, claro, obrigado. Meus cumprimentos ao… Sr. Salieri! – Respondeu em tom respeitoso.

- Sr. Salieri quer que você saiba que ele é muito grato a você. – Disse aproximando sua cabeça do carro, fitando o taxista. – Se você precisar de algo pode voltar aqui e pedir nossa ajuda. O Sr. Salieri não se esquece dos amigos que o ajudam. Se você estiver interessado, podemos lhe arranjar um trabalho para você, aqui. E você seria bem pago. Sempre temos lugar para caras bons como você.

- Ok, ok… Pensarei a respeito, obrigado, muito obrigado… – Estava estabanado. – Melhor eu sair… Para arrumar o carro e você sabe… – Dizia, temeroso, concordando com a cabeça a cada frase.

- Certo, entendi… Apenas pense a respeito. – Sam deu um pequeno sorriso, o suficiente para apertar um pouco de seus olhos. – E espero que esteja claro que esse assunto ficará somente entre nós! – Desencostou do carro, afirmando com cara fechada, agora. – Se cuide, rapaz.

Tommy afirmou com a cabeça e tocou o carro, nervosíssimo. Um de seus olhos piscava sozinho graças à tensão. Sam o olhava se afastar, e depois voltou para o comércio assim que o táxi passou pelo Boys Grill.

Mais tarde, em seu pequeno apartamento, antes mesmo de tomar banho, sentou-se a mesa. Encarava o envelope. Levantou-se e foi até uma estante e pegou uma garrafa de uísque que escondia. A bebida era considerada ouro nos tempos em que a Lei Seca, que estava presente na lei do país desde 1919, vetava o comércio dos alcoólicos. O colocou sobre a mesa, sentou-se.

Seu apartamento era pequeno e desarrumado. Na mesa havia seu telefone, uma pequena mala que usavam para o trabalho do lado e roupas dos lados. O radio estava desligado. Retirou do envelope um pequeno bolo de dinheiro. Havia apenas notas de 50 e 100. Era mais dinheiro que o necessário e cobriria duas semanas inteiras de trabalho, isso se ganhasse apenas boas gorjetas. Nem sequer chegou a contá-lo, apenas bateu os olhos nos números das cédulas.

Encheu seu copo e começou a tomar olhando o dinheiro. Não queria ser um criminoso, ou fazer parte de qualquer coisa assim mesmo que tivessem todo o dinheiro do mundo. Pensava que era melhor ser pobre e vivo do que rico e morto. Uma frase de sua mãe veio a sua mente. “Você nunca pode dizer o que Deus tem guardado para você”.

Tentou dormir para no dia seguinte, cedo, levar seu carro para consertar. Sua mente estava confusa.

Capitulo 2

Passaram-se alguns dias e Tommy continuava a trabalhar em seu táxi. Era uma manhã ensolarada e com vento. Levava passageiros até o tumultuado centro de negócios Downtown até ao norte, em New Ark. Não gostava de ir até Central Island, era muito movimentada, mas o que podia fazer? Levava seus clientes com todo o cuidado, odiava suas reclamações e pior, ter de respondê-las com educação. Educação sua mãe havia dado, pensava. Para amenizar o transito, seguia pela ponte Giuliano e pelo túnel.

Quando voltou até Pequena Itália, não pode deixar de pensar no que aconteceu dias antes. Era um bairro de imigrantes italianos, sicilianos em sua maioria. Formaram uma comunidade ao seu jeito e colocaram o nome de sua terra natal. Resolveu parar para tomar um café e esperar um cliente. Foi a uma pequena lanchonete e tomou um gole de pingado e voltou para seu táxi. Como de costume, foi conferir as rodas e a lataria.

Parecia tudo certo e decidiu ir descansar no carro. Olhava em volta enquanto ajeitava sua boina, não pôde deixar de perceber que estava próximo ao bar do tal Sr. Salieri. Descansava, recostado no banco do carro. Sua pausa foi quebrada quando, de repente, um taco de beisebol atingiu o vidro da janela, ao seu lado.

- Jesus! – E abaixou-se protegendo o rosto, tentando se defender.

Alguém atingia o vidro seguidamente com o taco. Um homem de terno e chapéu pretos, com uma fita azul abriu a porta com força e agarrou Thomas. O outro homem continuava batendo em outros lugares de seu táxi.

- Pegamos você, seu ratinho! Sr. Morello está bem nervoso com você. – E o puxava para fora, jogando-o no chão. Nós vamos te ensinar uma lição, então lembrará que isso não é bom!

Tommy apavorou-se. Não se importava tanto se o espancassem, mas deveriam deixar seu carro inteiro. Sem ele não ganharia dinheiro e morreria de fome. O outro homem usava um paletó marrom e chapéu cor de pele, atingia a frente do carro com seu taco de beisebol arrancando o farol e destruindo o capô. Estava no chão, sentado encostado ao carro e tentava pedir para que eles parassem de bater no automóvel, mas o outro homem o chutava violentamente. O barulho de vidro quebrando era perturbador. As pessoas começavam a se reunir próximo para ver o que estava acontecendo, mas ninguém tentava ajuda-lo.

Os rapazes haviam anotado a placa de seu táxi e começaram a caçá-lo desde então. Angelo começou a proteger o rosto das bordoadas. Conseguiu se levantar com esforço quando o homem parou.

- Louie vai acertar um pouco a sua cara. – Apontando para Louie, o bandido com taco de beisebol.

Quando veio para atingi-lo, Tommy escorregou pelo meio deles e o outro errou atingindo acidentalmente o seu comparsa.

- Acaba com ele! Não desperdice mais o seu tempo! – O de preto tirou seu revolver.

Tommy atravessou a rua correndo desesperado. Estava claro que ele precisava sair dali bem rápido, não podia lidar sozinho com aqueles dois. O homem disparou e os transeuntes fugiam correndo, outros se jogando no chão e protegendo suas cabeças. Lembrou de Sr. Salieri e viu que aquela era a hora ideal dele mostrar sua gratidão.

Entrou por uma pobre viela que ligava à outra rua. Podia ouvir os gritos das pessoas ao ouvir os tiros. Virou-se pra trás e o homem continuava em seu encalce recarregando a arma, o outro estava logo atrás. Acelerou seus passos, derrubando alguns latões velhos. Desembocou na rua finalmente, com os tiros ricocheteando nos tapumes de madeira. Esbarrou em dois pedestres com medo e atravessou a rua. Um dos homens que o esbarrou levou um tiro acidental e caiu gritando no chão. Não fora mortal, a bala pegou em seu antebraço.

Viu outro beco, parecia de uma pequena vila. Quando ia entrar, um carro saiu a toda quase o atropelando. Continuou correndo, passando por um homem que urinava no canto. Ao ouvir o tiro, o rapaz jogou-se no chão sujando-se todo. Subiu alguns lances de escada, seu fôlego estava acabando, seu coração prestes a parar de tanto bater. O barulho das janelas se fechando podia ser facilmente ouvido. Voou por um corrimão e caiu rolando alguns pequenos degraus e levantou-se saindo para a rua novamente.

- Pare bastardo! Vamos arrancar sua cabeça!

Entrou por outra viela e os homens continuavam a segui-lo decididos a deixá-lo bem machucado. Uma mulher clamava a Deus pensando que os marginais iam matar seu marido. Finalmente saiu na frente do bar de Salieri. Quase foi atropelado ao atravessar a rua, os carros frearam com força e começaram a buzinar. Pulou para a porta do bar, olhou para os lados e entrou.

Os dois homens de Morello chegaram e Louie guardou sua pistola atrás, em sua calça, tampando com o terno. O restaurante estava com alguns homens e o barman enxugando pratos do café da manhã no balcão. Os rapazes olhavam pelo vidro buscando o taxista. Dois de meia idade levantam-se ao ver aqueles bisbilhoteiros entrando no café.

Thomas, quando entrou, não achou nenhum conhecido. Ao vê-los se aproximando, escondeu-se atrás de um banco. Os bandidos entraram e foram até o balcão, falando com o idoso e calvo barman, que vestia um avental.

- Onde está o homem de boina que entrou aqui correndo?

- Eu não sei… – Disse olhando para os dois, devagar.

- Ele é nosso, certo? Então diga. Não se meta em problemas. – Falou Louie, sendo desrespeitoso.

- Bom dia, senhores. Nós vimos ele, como não poderíamos? Entendo que o problema é de vocês, então vamos levá-los até lá. Não queremos confusão, não vamos deixar um qualquer causar isso. – Disse um dos homens que haviam acabado de se levantar.

Os outros rapazes que estavam no restaurante levantaram-se também. Thomas logo percebeu que eram como a dupla daquela noite. Deram tapinhas nos ombros dos recém-chegados e seguiram os quatro para uma porta dos fundos sorrindo. O velho aumentou o volume do rádio.

Dois disparos ecoaram pelo restaurante e nem a música pode abafar. Assim que a porta se fechou, os dois perseguidores foram pegos com brutalidade e levados até a oficina nos fundos. Cada um levou um tiro na cabeça. Era um desrespeito fazer isso. Os corpos foram levados para um caminhão momentos depois e seriam despachados em algum mangue.

O atendente preferiu fechar o bar, indo até a calçada e olhando para os dois lados. Não havia nenhum tira nem reforços daquela dupla. Voltou fechando a porta e mudando a placa para “Fechado”. Tommy não viu o que aconteceu, mas já podia imaginar. Não sabia se sentia mal por duas pessoas terem morrido ou bem por estar inteiro.

- Pode sair. – Falou, limpando as mãos no avental.

- Eu sou Tommy, taxista, me desculpa pela confusão, eu…

- Acalme-se, menino. – Sorriu, aliviando a tensão. – Sou Luigi, se senta aí que vou fazer algo pra você comer.

- Mas…

- Se senta logo!

Era simpático, Tommy o obedeceu e sentou-se no mesmo banco que havia se escondido. Seus cabelos eram brancos e raros em sua cabeça branca, com algumas poucas manchas da idade. Seus traços eram finos, foi um homem bonito quando jovem. Usava gravata borboleta, uma camisa social branca e um colete cinza.

O taxista começou a olhar em volta no bar, acalmando-se. Acomodou-se no estofado e juntou suas mãos. Ficou levemente nervoso novamente ao ver um revolver na parte interior do balcão, não podia imaginar aquele barman com um trabuco nas mãos.

Comeu bacon com ovos e depois um copo de café quente. Luigi era um ótimo cozinheiro, de fato alem de ter a habilidade de fazer qualquer um se sentir em casa. Antes de terminar de comer, a porta abriu e um dos rapazes daquele dia entrou.

- Olá Paulie!

- E aí coroa… Tommy? – Paulie o viu comendo.

- Olá…

- Como foi vai meu rapaz? – Aproximou-se, abrindo os braços, com sua acentuada voz fanhosa.

- Ei Luigi, me dê um café. Que veio fazer aqui? A proposta do Sam… Você aceitou? – Falava enquanto sentava de frente para o taxista.

Conversaram sobre o acontecido enquanto o bar começava a encher. Era costumeiro os rapazes chegarem esta hora, por volta do horário de almoço. Tommy não queria ficar com eles, mas Paulie o convenceu prometendo que depois resolveriam o problema do táxi. Sam finalmente chegou e o deu um rápido oi, e continuou resolvendo assuntos com outro.

O tilintar dos talheres e as vozes altas dominaram o lugar. Paulie recostou-se sobre o balcão, virando para Tommy. Logo atrás dele Sam conversava com outro, à sua esquerda estava o Beberrão, um homem querido por ali e com sorte no jogo. Do outro lado, um dos que o encararam naquela noite em que ele chegou ao bar.

- Veja Tommy, esses rapazes do Morello não sabem o que significa respeito. Eles te seguiram por nosso território e entraram aqui, justamente aqui! Mereceram o que ganharam. Quer dizer, que você faria se alguém entrasse em sua casa e te mandasse? – Gesticulava para todos os lados e olhava em volta – Isso não é certo. Eu não queria falar, mas você está em perigo. Você pode voltar e dirigir o seu táxi, mas não podemos garantir nada.

Tommy apenas concordava e o ouvia, imerso em seus pensamentos. Estava em maus lençóis. Seu chefe jamais aceitaria alguém ligado a mafiosos, perderia seu emprego como taxista. Para ele, não era bom negócio.

- O Sam aqui, ou o Carlo – virando-se para os homens a sua volta – sabem o que isso significa e jamais fariam. Acho que podemos te considerar sortudo por ter nos conhecido. Diabos, Morello nem sequer te daria um centavo pelo seu trabalho. Talvez te matasse até! – Olhou Carlo buscando confirmação, e ele acenou com a cabeça e observava Thomas.

- Eu acho que o nosso amigo aqui é mais rápido com as pernas do que com o táxi! – Brincou o Beberrão, falando sobre sua fuga pelos becos.

- Às vezes, mas talvez eu coloque algumas rodas em mim. – Tommy respondeu a brincadeira com um pequeno sorriso.

Todos riram.

- Vamos fazer assim, mais tarde vamos comprar algumas roupas boas pra você. Um presente nosso. Amanhã vamos te apresentar o Sr. Salieri. Quero você usando um terno alinhado, uma boa calça. Você concorda?

- Posso dizer que sim. – Disse Tommy.

- Perfeito, ei Sam, vamos sair daqui a pouco para dar um passeio. Está com as chaves aí?

Sam afirmou com a cabeça e voltou ao seu assunto. Paulie ajeitou sua gravata vinho e debruçou sobre o balcão. Thomas os via como bons rapazes, a policia era muito exigente e pouco fazia pelas pessoas. Que fariam se ele fosse denunciar os marginais que tentaram matá-lo? Com certeza nem sequer o ofereceria um prato de boa comida.

Não parecia ser tão ruim agora que pôde observar melhor. Não tinha mais nada a perder. Como iria dirigir se o tal Morello o perseguia? Pensava. Tudo tem seus riscos, e para ele era melhor morrer jovem e cheio.

Mais tarde comprou um terno e uma calça preta. Paulie e Sam escolheram para ele pessoalmente em uma rica alfaiataria do bairro. Foram de carro. Mais tarde, jogaram baralho e falaram sobre mulheres. No dia seguinte encontraria o tão aclamado Sr. Salieri, dormiu cedo para acordar bem. Um associado fez a vigia de seu apartamento.

Seu táxi foi rebocado e devolvido ao chefe do ponto.
O dia nasceu. Era hora de mudar de roupa… e de vida.

***

CONTINUA NA PARTE 2

Espero que gostem desse novo projeto. O sucesso do Grand Theft Auto 3: Vendetta Latina (TA 3 contado em forma de livro) me animou bastante para continuar a fazendo isso. Não sei como vai ser daqui pra frente, vamos ver!

Mafia: The City of Lost Heaven é um jogo que marcou minha adolescência. Eu jamais poderia esquecê-lo. Nunca imaginei que trabalharia nele haha. É o tipo de game que deveria ter virado filme. Quando vejo Paulie, é impossível não imaginar Joe Pesci fazendo seu papel. Genial, muito Scorsese.

Bem, é isso aí.
Obrigrato por perder tempo com o cogumelo!

Até a próxima!

PARTE 2

PARTE 3

PARTE 4

PARTE 5

PARTE 6

PARTE 7

PARTE 8

PARTE 9

PARTE 10

PARTE 11 (FINAL)

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8 Comentários até agora »

  1. 1

    yuri said,

    julho 26, 2010 @ 0:27

    FODASTIC*

    amei.se for um filme pode ser melhor q “o padrinho”

  2. 2

    Pedro Casanova said,

    julho 26, 2010 @ 0:31

    Valeu, brother! Fico muito feliz que tenha gostado!

  3. 3

    jonas said,

    julho 27, 2010 @ 0:31

    Cara, num falo nada, pq nao posso. Mas so pra te deixar curioso, eu trabalho num restaurante italiano na rua que a Mafia de Melbourne controla….

    Deu pra entender, quem passava por la toda manha pra tomar um short Machiato (café) com leite frio separado e adoçante?

    O Unico cara que tinha o nome no computador. O computador tem todas as mesas do restaurante. e tem essa unica mesa com o nome desse cara.

  4. 4

    Isaque said,

    agosto 21, 2010 @ 15:42

    Suas histórias são de se fudÊ

  5. 5

    Pedro Casanova said,

    agosto 21, 2010 @ 18:05

    Valeu brother! :D

  6. 6

    Isaque said,

    agosto 25, 2010 @ 13:39

    Paulie e Sam é como se fossem Sonny e Michael Corleone, um todo estressado e o outro mais calmo.
    E se virasse um filme, tinha que ser Robert DeNiro interpretando Tommy, e o Anthony Hopkins interpretando Don Salieri.

  7. 7

    Pedro Casanova said,

    agosto 25, 2010 @ 14:13

    boa! :D

  8. 8

    Ricardo said,

    outubro 17, 2011 @ 15:48

    Cara, bem que você poderia liberar essas séries em .pdf ao final né!? :D

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