Episódio 88 – Mafia: Pecado no Paraíso Perdido Pt.2

Capitulo 3
Era uma manha ensolarada e enevoada em Lost Heaven, logo após tomar em seu apartamento um breakfast reforçado com ovos mexidos e leite, vestiu o terno que havia comprado pelos dois camaradas. Depois de vesti-lo, ficou encarando-se no espelho por quase 5 minutos. Queria estar impecável.
Saiu e se dirigiu até o Salieri’s de táxi, pagou um. Isso de certa forma o fez se sentir esnobe, mas tentou tirar isso da cabeça. De forma alguma queria parecer fraco e incapaz para seu novo chefe. Nessa confusão mental, imaginava ainda se valeria a pena. Talvez o Sr. Salieri fosse um velho rabugento e nefasto, que fizesse coisas tão graves quanto desrespeitar a própria mãe.
Por volta das 11 horas, chegou ao bar. Cumprimentou Luigi e alguns rapazes que estavam sentados jogando baralho. Paulie veio saudá-lo, estava no balcão a conversar com o barman. Levou Tommy até uma pequena sala de reuniões com certa pressa, passando por um pequeno cômodo com quadros e uma mesa de sinuca. Pela persiana pôde ver um homem de pé, outro corpulento sentado e Sam. Imaginou que este homem maior fosse Salieri.
Sam mexeu a cabeça em cumprimento ao ver Thomas, Paulie sentou-se mais próximo do velho, com as mãos sobre a mesa. Tommy sentou-se ao lado de seu guia, pondo as mãos sobrepostas na mesa e ajeitando-se.
Na extremidade da mesa, onde os chefes de família se sentam, estava um pesado homem de seus 50 anos. Seu rosto era redondo, típico siciliano e de traços grossos, de pele branca e levemente morena. Seu cabelo era espesso e cheio, grisalho. Não usava gravata, apenas um colete preto e camisa social branca por baixo. Parecia apenas estar esperando o novato se ajeitar para lhe dirigir a conversa.
Ao seu lado, um homem em pé de ar esnobe. Devia ter mais de 60 anos, usava óculos, calvo na frente e com expressão fechada. Era um pouco pálido, mas talvez fosse apenas à sombra do ambiente. Estava de pé com as mãos entrelaçadas em frente ao seu abdômen, usava um fraque e uma fina gravata. Não parava de olhar o taxista, e isso o incomodava.
A sala era larga, coberta de madeiras e algumas janelas com persianas e iluminada por uma forte lâmpada pendurada em um lustre. Uma larga mesa de cedro estava no centro da sala, com cinzeiros a disposição. Havia uma vitrola ao fundo, sobre um delicado armário.
- Bem, parece que Morello está realmente tentando me deixar louco. – Sua voz era sonora, grave. Sem dúvidas ele era Salieri, e era poderoso. – Mas sou uma pessoa razoável.
O coração de Tommy batia forte, os dois se encaravam.
- Como lhe chamam, filho?
- Thomas Angelo. – Respondeu tímido.
- Decidi dar uma chance a você, Tommy. Gosto de gente nova. – Sua mão estava levantada, próxima à barriga. Gesticulava bastante. – Nós somos uma grande família aqui. Você já conhece Paulie e Sam.
Paulie fez uma pequena saudação para Tommy, e Sam apenas o olhou.
- Frank é meu braço direito. – E estendeu a mão até o velho ao seu lado. – e cuida do aspecto legal do nosso negócio.
Frank olhou seu chefe.
- Aquele atrás do balcão é Luigi. Esse negócio não é fácil de engolir, mas Luigi é um cozinheiro maravilhoso.
Este comentário aliviou a tensão de Angelo, que esboçou um pequeno sorriso no momento em que Sam e Paulie também riram. Frank continuava sério.
- Paulie irá lhe apresentar para Vincenzo e Ralph. Existem muitos de nós, mas estes devem ser o suficiente agora. Agora ouça, e ouça bem. – Balançou a mão, em sinal de que ele precisaria prestar a atenção. – Temos regras por aqui. – Recostou-se na cadeira – Não cruze seu caminho com o dos tiras. Eles estão em nossa lista de pagamento, então eles não irão mexer com você. Mas se você exagerar, eles irão atrás de você com dinheiro ou sem dinheiro. Se eles pegarem você, não solte um pio e irei cuidar de você. – Apontou para Frank. – Eu mostro minha gratidão para aqueles que me ajudam. – Apontou para si mesmo. – E não sobraram muitos que me traíram. Capisci? – Desencostou da cadeira e encarou o homem.
- Sim, sr. Salieri! – Tommy respondeu com certo temor.
- Estou contente. – Recostou. – Hoje irei lhe dar a chance de se vingar daqueles bastardos que quebraram seu táxi. Veremos do que você é feito. Morello tem um bar onde seus gorilas vão e todos eles tem carros estacionados atrás da cerca ao lado do estabelecimento. Se você for bom, eles não estarão lá amanhã de manhã. – E riu, sorrindo pela primeira vez na conversa. – Paulie irá com você, caso precise.
Sorrindo, Paulie se levantou.
- Vá ver Vincenzo para se equipar e Ralph para pegar um carro.
Sam levantou-se também, e por último Tommy, os olhando. Os três saíram rapidamente, Salieri os acompanhou com a cabeça, os vendo sair.
- Não confiaria tanto assim nele. Ele me pareceu hesitante. – Advertiu Frank. – Ele só aceitou porque não tem escolha.
- Iremos ver Frank, iremos ver. – E olhou para a mesa vazia. – Estou mais preocupado sobre que problema Morello é. Ele realmente quer iniciar uma guerra?
Paulie, ainda mancando, levou Tommy até os fundos passando por um pátio descoberto, um estacionamento. Foram subindo umas escadas, em um beco que guiava até a calçada.
- Vincenzo é o especialista em armas do Don, eles se conhecem desde crianças. Ele arranja o que você precisar. De armas até canhões, Tommy, Vinny pode arranjar pra você. – Falou ao chegar no topo da escada.
Tommy afirmou com a cabeça e os dois entraram.
- Sempre o visito antes de um trabalho.
Era um corredor de paredes amarelas, que levava até outra porta. Paulie a abriu, enquanto o ex-taxista o seguia.
- Buongiorno Vincenzo!
- Ciao Paulie! – Respondeu.
Vincenzo era um gorducho calvo, de cabelos castanho claro. Tinha grandes bochechas, e pele avermelhada. Estava de suspensório, calibrando uma espingarda. A sala era assustadora, tinha armas de todos os tipos. Penduradas, ao lado de cinturões de munição e caixas.
- Este aqui é Tom. Acabou de começar conosco. – Paulie apresentou, enquanto o outro se aproximava da mesa em que Vinny estava sentado.
- Prazer em conhecer você, Tom! Que posso fazer por vocês?
- Temos um trabalho a fazer, precisamos algo para arranhar alguns carros.
- Esta peça clássica dos equipamentos esportivos deve fazer seu trabalho, e se não, acabei de misturar alguns coquetéis.
Tommy viu um taco de beisebol encostado na parede, e começou a ter idéias quando se aproximou dele. Vincenzo foi pegar os coquetéis. Para Tom, tudo isso era estranho. Parecia estar em um filme, ou relato de jornal. Tratavam destas coisas com muita simplicidade.
- Porem, cuidado com eles. – Colocou um caixote de madeira cheio de garrafas sobre a mesa e sentou-se novamente, preguiçosamente.
- Obrigado, Vincenzo. – Paulie pegou a caixa, enquanto Thomas já saía do lugar.
- Traga o taco de volta, é do meu sobrinho! – Avisou o gorducho, e voltou a trabalhar em sua espingarda.
- Está certo. – E saiu carregando o caixote.
Desceram a escadaria e voltaram para o estacionamento, caminhando até a oficina. Deixou o caixote próximo à porta que levava aos fundos do bar e pegou as duas garrafas de coquetel molotov.
- Ralph, que irei te apresentar agora, é um idiota completo. Mas ele tem um jeitinho especial com carros. – Chegou até a porta de aço e agachou-se, levantando ela. – Eu não entendo como um retardado assim poder de algo sobre qualquer coisa, mas é assim que as coisas são às vezes.
A oficina era um amplo galpão com alguns carros e muitas ferramentas. O lugar era sujo de graxa e óleo, repleto de caixas e latões.
Levantou de trás de um carro um homem de macacão jeans e camisa de mangas dobradas por dentro, era pálido quase amarelado e seu cabelo era castanho. Meio corcunda, de postura estranha.
- Hahaha, uma vi-vi-,visita. – Era gago. Como vai, Paulie?
- Hei, Ralphy!
Os dois foram caminhando até o mecânico.
- Eu ve-ve-vejo que você está mancando ainda, então temos dois inúteis trabalhando aqui. – Brincou de mau gosto e levou as mãos à cintura.
- Está certo, mas não sou um tolo. – Coçou a cabeça, com cara de irritação e o encarou em seguida.
Ralph balbuciou, desviando o olhar com medo.
- Ralphy, este é Tom.
Ralph olhou para Tommy, que estava observando o carro que o gago consertava do mesmo modo que sempre verificava seu táxi. Era um costume.
- Se você trouxer pra ele um carro roubado, Tommy, ele irá fazer com que seja seu e ninguém irá notar a diferença.
Os dois deram as mãos, cumprimentando-se. Tom achava aquele mecânico estranho.
- Ralph, Tom e eu temos trabalho a fazer. Você deve ter algo pra nós.
- Certo, hehe, aqui está, heh. – E apontou para um Bolt Ace Fordor esverdeado.
Os três foram andando até o carro, espantando um gato que dormia de baixo dele.
- Não é uma caranga, hehe, mas deve servir pra você.
Tommy tomou a iniciativa e abriu o carro, sentando e o conferindo o painel. Era um apaixonado por automóveis.
- Obrigado Ralph, vamos lá. – Falou Paulie, dando a volta no carro e sentando no carona.
Tommy cruzou Lost Heaven em direção ao bar do Morello, Paulie ajudava no caminho. Ficava do outro lado da cidade, após a ponte Giuliano. O recém-mafioso pensava no que havia se metido. Na possibilidade de matar alguém. Isso era estranho demais para ele, mas aqueles eram tempos difíceis afinal. De que servia o bom homem? E no fim das contas, Salieri ajudava aqueles que a policia fingia não ver. Só se prejudicaria aqueles que o desrespeitassem. E regra por regra, a dos italianos parecia mais justa. No caminho, o comparsa ensinou também como usar os explosivos molotov.
- Certo, aqui estamos. Não vá pela frente, ache outro caminho. Se livre do guarda em silencio se você não quer chamar a atenção. Quebre os carros com o taco e deixe os fogos para o final. Boa sorte, camarada.
Estacionou o carro e observou um italianinho de boina e camisa barata. Paulie pegou o taco no banco de trás e deu na mão dele. Tommy observou o pedaço de madeira, e o rapaz. Era magrinho, parecia fraco. Vigiava a porta para o pequeno estacionamento dos fundos. Observou a rua, tinha um numero considerável de pessoas caminhando pela rua devido ao horário, por volta das 16h, muitos voltavam de seus empregos. Paulie o olhava com certa pressa e olhava para o bar, onde alguns homens jogavam cartas.
- Obrigado, eu já volto.
Tommy saiu, fechando a porta. Atravessou a rua, indo à direção ao homem. O vigia o olhou com um ar marrento. Aquilo envergonhava Tom, jamais pensou que faria algo assim. Mas esse era o destino de muitos, tinha que se conformar e terminar o que começou. Melhor acertar do que ser acertado.
Atravessou com atitude ao se aproximar levantou o taco e com força golpeou o vigia. Foi com força o suficiente para desmaiá-lo de uma vez só. O garoto virou para trás e caiu na calçada desmaiado, com a testa aberta que viria a sangrar minutos depois. Eram três carros finos, polidos e bem cuidados. Um deles estava meio sujo, provavelmente seu dono não era dos mais caprichosos, mas era belo modelo. Por instantes, até pensou em perdoar os carros e enfrentar os homens de tanto arrependimento em destruir aqueles veículos. Afastou estes pensamentos da mente quando imaginou aqueles gorilas o espancando.
Angelo começou a acertar os carros com o taco de beisebol, quebrava os vidros, arrancava os faróis e os retrovisores. Poucos minutos depois havia capôs no chão e vidro estilhaçado, as rodas estavam fora do eixo. Nem era mais sombra do que foram, tornaram-se apenas carros retorcidos, destroçados pela brutalidade. Paulie divertia-se assistindo e apreciando a mudança que o pacato taxista havia sofrido.
Na saída, correu em direção ao carro rapidamente, pegou as duas garrafas com Paulie e deixou o taco lá dentro. Levou o seu isqueiro até o pano embebido em álcool preso ao gargalo e lançou o coquetel em um dos automoveis. Fez o mesmo processo jogando em outro. Quando escutou a explosão, correu até o banco do motorista e acelerou a toda. Pelo retrovisor viu os homens de Morello saindo do café sem entender o que tinha acontecido. Teve uma crise de riso, de nervoso. Paulie riu também, e o comemorou dando tapas em suas costas. Os carros foram queimados, seus motores avariados. Depois descobriram que o segundo atingido pelo explosivo ganhou perda total.
- Diabos, aquilo foi lindo! Eles devem estar furiosos agora! Salieri vai amar ouvir isso.
Tom sorriu, como não poderia? Adrenalina corria pelo seu corpo e uma animação pelo novo emprego o fazia imaginar muitas possibilidades. Um ramo que lhe pagaria no mês o dobro do que conquistava em um ano. Vingou seu carro, fez o que teve vontade. Por instantes teve idéia de visitar seu ex-chefe, os garotos que batiam nele na infância, sua professora de matemática e os clientes chatos que atormentaram a vida inteira. Queria lhe quebrar os carros, explodirem-los. Mas vivia em um conto de fadas, sua mente não havia racionalizado ainda. Ele fazia parte de algo maior que uma empresa de táxis, do que sequer poderia imaginar.
Chegaram rápido até o bar de Salieri. Estacionaram o carro nos fundos e foram até a entrada principal do comércio. Paulie foi na frente abrindo a porta, e Tommy o seguia. Atrás do balcão trabalhava Luigi e uma bela garota de cabelos curtos e castanhos, que se parecia com ele e outros rapazes estavam no estabelecimento, conversando sobre as coisas variadas. Tommy nem sequer prestou atenção nela, mal podia esperar o que o chefe ia falar. E ele estava ali, sentado em uma mesa encostada à parede, aproveitando um charuto e uma garrafa de uísque escocês. Observar o movimento na rua o ajudava a pensar.
- Estamos de volta, chefe. – Paulie apresentou-se.
- Maravilhoso, – E deu uma longa tragada em seu charuto. – sentem-se. – Apontando o banco com o fumo. – Tudo correu bem?
- Claro chefe, ele tem o dom. – E sentou-se. – Antes que eles pudessem
falar “genoveva” eles estavam sem carros! E antes que pudessem se recuperar, – Deu um soco na mesa e olhou Tommy, que se sentava de frente para ele e de costas para a parede. – nós já tínhamos ido. Morello provavelmente está puto agora.
Tom o olhava, um pouco sem graça pelos elogios.
- Realmente? Estou contente em ouvir isso. – E olhou Tommy, com seu charuto enfumaçado em mãos, levando até a boca.
- Ele é do tipo durão. – Recostou na cadeira.
- Neste caso, bem vindo à família, Tommy. – Levantou-se, colocou o charuto de lado e levou o corpo em direção ao homem.
Os dois se abraçaram amigavelmente, um levando a cabeça para o lado do outro encostando em seus ombros.
- Você passou em seu primeiro teste.
- É uma honra, senhor.
- E agora temos um novo membro.
- Gostaria de levá-lo ao alfaiate, chefe. – Olhou Tommy rapidamente, orgulhoso com o sentimento de ser um mestre iniciando um pupilo. – Você pode ver que ele não está assustado, ele se deu
realmente bem.
Tommy e Salieri sentaram-se novamente.
- Não me desaponte, Tommy. Agora, vamos beber! – E, gentilmente, Salieri colocou dois copos para seus rapazes e colocou bebida em seus copos.
Levantaram o escocês e brindaram.
- Obrigado…
Divertiram-se naquele começo de noite. Embora o don se misturasse aos seus funcionários e até os concedesse gentilezas como servir a bebida, deixava claro que era o chefe ali. Não dizia sua posição, mas seus atos e o respeito pelos outros provavam isso a cada momento. A proximidade era um jeito inteligente de evitar traições e criar laços emocionais entre os funcionários, assim eles pensariam duas vezes se fosse traí-lo. Era como os velhos chefes da Sicília. Serviam os vícios dos homens, protegiam as mulheres e eram intensamente moralistas, nunca sendo alcoviteiros ou mulherengos.
O velho tinha o pensamento de que poderia conhecer melhor seus homens se passasse mais tempo com eles, e por isso observava Tommy, a todo o momento. Agora, o ex-taxista fazia parte do negócio. Naquela noite, nem sequer conseguiu dormir direito, era incrível para ele.
Capitulo 4
Ganhou folga no dia seguinte e apareceu no bar apenas na sexta à tarde. Estava cheio de pessoas almoçando e conversando. Luigi estava ocupado no balcão conversando sobre contas. Tom foi até a sala de reuniões e encontrou Sam e Paulie conversando, a beira da mesa de sinuca.
- Oh, oi Tom. – Falou Paulie.
- Ei, Tommy. Podemos ir agora, ele está esperando.
Os três caminharam até a sala de reuniões onde Salieri estava com Frank. Entraram na sala e o chefão os olhou, cumprimentando com a cabeça. O consiglieri estava próximo à janela e fechou a persiana assim que os rapazes se acomodaram nas confortáveis cadeiras, voltou para próximo ao Don ajeitando seus óculos e levando as mãos para trás depois. Sam estava
próximo ao chefe, em frente à Tom, que estava ao lado de Paulie.
- Hoje, iremos visitar alguns lugares para coletar o dinheiro da proteção. – Iniciou, assim que os homens sentaram-se. Dois restaurantes e um motel fora da cidade. Bill no motel estava atrasado da última vez porque ele teve alguns problemas. – Debruçou sobre a mesa. – Então hoje, ele vai pagar mais.
- Você deve ter escutado sobre como criminosos podem atacar negócios usando várias ameaças. – Frank intervira. – Este, com certeza não é o nosso caso. Pessoas que nos pagam recebem serviços. – Ergueu a cabeça. – Serviços que, com certeza, a policia jamais poderia prover para eles. Mês passado, por exemplo… – Passava os olhos em todos os presentes. – Sam e Paulie resolveram um problema sério de violência em um maravilhoso restaurante. O proprietário agora está satisfeito e sabe que nada desse tipo acontecerá lá, novamente. – Finalizou olhando para o Don.
- Você irá dirigir. – Falou para Thomas. – Paulie e Sam vão fazer a coleta. – Balançava o charuto em sua mão. – Será coisa rotineira. Fale para Ralph lhe dar um carro e vá.
- Certo, chefe. – Disse Tommy, levantando-se junto aos comparsas.
- Bem, eu e você iremos beber. Que me diz, Frank? – E riu, levando o charuto a boca.
Os rapazes foram pegar o carro e seguir em torno da cidade, buscando o troco. Tommy estava feliz por ser apenas o motorista, por não precisar empacotar ninguém. Para ele, poderia ser assim pra sempre.
Estes problemas de proteção eram facilmente resolvidos, mas as vezes estes problemas eram plantados. Muitas vezes, Salieri pagava vagabundos para aterrorizar um estabelecimento e em seguida mandava seus homens proporem a proteção. Dessa forma, se viam impulsionados em pagar. Era importante virar cliente de Don Salieri, ou teria de enfrentar algum azar.
Quanto aos vagabundos, muito destes pequenos bandidos eram contratados pelo italiano para que pudessem aterrorizar o negócio a fim de fazê-los aceitar a proteção. No entanto, mesmo com a proteção da família, alguns picaretas tentavam ganhar mais vantagem do que deviam. Foi assim quando três rapazes de New Ark quebraram o bar de um irlandês na Ilha Central. Ninguém se feriu, mas não sobrou muita coisa do lugar.
Paulie e Sam foram, em nome da família, ver o que havia acontecido. O dono, um pesado e argiloso irlandês, disse que não pagaria nem mais um centavo aos italianos e que iria querer o dinheiro do mês de volta. Disse que uns rapazes desconhecidos eram os responsáveis pelo fatídico.
Investigaram então, e os informantes avisaram que alguns caipiras tinham de fato tocado a confusão no boteco. Não demorou para que a dupla colocasse a mão neles. No dia seguinte, foram capturados em New Ark e jogados no carro, levados até o porto e espancados. A violência foi tão grande, que eles assumiram mais o que deviam. Disseram que o dono do bar queria tirar uma vantagem e se livrar de Salieri contratando os três para ganhar uma bolada do seguro e, por conta do furo na proteção, não precisaria mais pagar os tributos ao Don. Os deixaram vivos, mas entregaram a policia.
Foi simples resolver o problema depois. Seu bar foi explodido com alguns coquetéis feitos por Vinny e depois de espancado, o irlandês foi obrigado a assumir sua trama e foi condenado por roubo. Mas o siciliano não esquecia das pessoas, e pagou por todo o ano seguinte uma farta quantia mensal para que a família pudesse viver. No fundo, não era bondade. Apenas uma estratégia de evitar vendetta ou problemas com a lei, caso a mulher resolvesse abrir o bico demais. Mas, para o mundo? Para o mundo Don Salieri era puro como um anjo.
Paulie e Sam nem sempre foram uma dupla. Antes havia alguém que tinha a mesma função que Tom, que os levava para os lugares. Mas como a maioria dos que ficavam com o serviço, foi pego pela policia. Salieri cuidava dele agora, mas ninguém à altura, ou melhor, foi encontrado para suprir seu lugar. Embora a dupla tivesse fossem de personalidades um tanto distintas, eram bons companheiros.
Paulie era brabo e explosivo, Sam era mais felino, maldoso. Geralmente Sam tinha as idéias e Paulie as executava. De fato, o ex-mecânico havia entrado na família de forma parecida com a de Tommy, e sabia jogar as cartas. Para Paulie, Sam era um bom amigo, o único que conseguia segura-lo quando ele estava prestes a partir a cara de alguém.
Depois de pegar o dinheiro em um restaurante na Ilha Central e no Bar Pompeii em Hoboken, o trio foi até o Motel Clark. Ficava fora dos limites da cidade e o dono devia um bom dinheiro aos italianos. Tommy acelerou e foi rápido até o local, pegando uma rodovia deixando Lost Heaven para trás. No caminho, passava a mão no bolso do paletó sentindo o revolver que ganhou de Vincenzo. Torcia para que não precisasse usar aquilo, nunca. Estava muito bem atrás do volante.
Chegaram em coisa de trinta minutos. O chão era de areia, não havendo
calçamento. Era uma grande casa de dois andares com bombas de gasolina na frente. Uma placa com o nome do hotel e uma seta guiava o caminho. Uma cerca delimitava o terreno. Tom estacionou o carro próximo ao pequeno posto e uma nuvem de poeira se levantou. Paulie saiui, Sam em seguida e por ultimo Tommy.
- Espere por nós, Tom. Voltaremos logo.
- Ta bom.
Tommy reparava no silencio de Sam enquanto Paulie falava. De fato, o outro era do tipo sério, calado.
- Vamos. – Disse Paulie, indo com Sam até o motel.
Tom encostou-se no carro de frente para a rua, afrouxando o nó da gravata. O sol estava a pino, mas o ar era puro e o clima fresco graças aos castelos de nuvens. Um moinho próximo fazia um barulho quase irritante. Tommy pegou sua cartela e caixa de fósforos e tirou um cigarro, levando-o a boca. Reparou a placa de “não fume” no posto a sua frente e balançou a cabeça negativamente em desaprovação.
Riscou um fósforo e acendeu seu fumo, protegendo com a mão o fogo do
vento. Começou a aproveitar seu fumo, tomou nota de um chique conversível amarelo estacionado próximo. Perguntou-se o que um carro daquele fazia em uma espelunca. Observava a rua e os raros carros que passavam e a placa do posto balançando ao sabor do vento. Levou seu cigarro à boca novamente, escorando-se na porta do automóvel.
Sua paz foi interrompida por três disparos dentro do motel. Tommy pulou do carro e tentou ver o que se passava lá. A porta abriu e Paulie saiu correndo, com a mão na barriga. Seu terno estava sujo de sangue.
- Merda! Bastardos… – Grunhiu, caminhando com dificuldades.
Tommy largou o cigarro e correu até o parceiro, que não agüentou e caiu de lado logo após descer os pequenos degraus que separava a varanda do quintal. O coração de Tom começou a bater muito forte, visto que como ítalo-americano, nunca havia visto disso. As pessoas de Lost Heaven sempre foram livres de ver estes acontecimentos.
- Tom, eu… peguei um… dói…
- Jesus Cristo, Paulie! – E chegou ao seu lado, abaixando e o ajudando. Todo aquele sangue o assustava. Não sabia se devia se amaldiçoar por ter entrado no negócio, ou por ser ele mesmo.
Ouviu passos e olhou em direção à porta. Um homem de sobretudo e chapéu de laço azul apontava uma pistola aos dois.
- Diga a Salieri que a partir de agora esse lugar é nosso! Capisci? Não volte aqui ou você vai acabar pior do que os seus colegas. – Deu as costas abaixando a arma e entrando, fechando a porta com força.
- … Pegue Sam! Eles querem tirar alguma informação dele, tire ele daí…
- Mas eu tenho que te levar em um médico!
- Isso pode esperar, primeiro pega o Sam!… – Disse com dificuldade.
Tom olhou em volta, não havia ninguém por perto. Arrastou Paulie até o carro e o encostou no pneu do carro, deixando-o confortável. Só neste momento notou uma cicatriz no rosto do camarada e percebeu que esta não devia ser a primeira vez que passava por maus bocados.
- Foda-se a rotina! – E tirou seu revolver, embora quisesse acreditar que não precisaria atirar em ninguém.
Correu até a porta e tentou abri-la, estava trancada. Ouvia barulhos de soco e gemidos, Sam estava sendo torturado. Olhou em volta, indeciso e decidiu correr pela esquerda do motel. Suas mãos tremiam e estavam geladas. Havia cabanas de madeira e latões, parecia um lugar abandonado. Quando chegou aos fundos, um dobermann o surpreendeu vindo furioso e latindo. Tom jogou-se em uma ripa de madeira e subiu em uma caixa.
Escalou as caixas com cuidado, usando habilidade que não tinha. As caixas balançavam prestes a desabar, e o cachorro o esperava babando lá embaixo. Alcançou a varanda do segundo andar, segurou-se nela e subiu. Abriu a porta e entrou no corredor.
O lugar estava silencioso, só se ouvia o cão latindo e isso o dava nos nervos. O sol entrava tímido pela janela, prejudicado por uma pedreira que ficava nos fundos do local. A sua direita havia um banheiro e a esquerda um corredor e uma escada que descia. Duas portas ali levavam a quartos. Engatilhou a arma da forma que aprendera nos tempos de moleque.
Em lentos passos caminhou até a porta do banheiro, via uma sombra cortando a iluminação que passava por baixo da porta. Provavelmente havia alguém lá. Ficou encarando a porta com medo de abri-la. De repente, um desespero o tomou e puxou a porta com força. Deparou-se com um homem sentado na privada lendo um jornal, usava terno e tinha o cabelo penteado pra trás, típico carcamano.
O homem, sem nada falar, largou o jornal e levou a mão até o interior do terno puxando uma pistola, indo apontá-la para Tom. No desespero, mirou seu revolver e atirou em seu peito. Ele levantou-se no embalo e recebeu outro disparo no peito. Seu rosto expressava agonia, e o mafioso não mais queria ver aquilo – finalizou atirando-o na cabeça, por puro impulso. Pela proximidade, não erraria nem se quisesse. O ultimo tiro pintou o azulejo branco de vermelho e sem as partes de baixo, ele caiu de joelhos abraçando o chão e cobrindo o jornal com seu corpo, dando um ultimo grito de dor.
Tommy estava vidrado no corpo e teve vontade de vomitar. Suas mãos tremiam, nem sequer poderia acreditar que tinha matado um homem. Estava condenado ao inferno, agora. A sua frente havia alguém com três balas no corpo e era sua própria culpa. O sangue o assustava, até a descarga estava manchada e o do chão caminhava lentamente em meio ao piso. Seu nariz não podia funcionar com o ferroso cheiro de sangue e fezes.
Escutou passos vindo das escadas e quando virou, viu dois homens já se preparavam para disparar. Tom atirou contra os dois, os atingindo no abdômen. As balas de sua arma acabaram e não hesitou em pegar a colt do morto e guardar a sua. Ouvia vozes no andar de baixo e isso o apavorava. Aproximou-se dos dois feridos ainda apontando a pistola e pensava o quanto às coisas haviam dado errado, a barriga deles cuspia sangue. Descobriu que um dos moribundos era o marginal que o ameaçou à pouco, assim que Paulie fugiu. Pegou a pistola dos feridos e desceu as escadas de madeira correndo deixando os pistoleiros gemendo de dor.
No andar de baixo havia duas entradas à esquerda e mesas de sinuca. Sabia que tinha gente ali, apenas os esperando. Olhou novamente e uma saraivada de tiros arrancou o embolso da parede e por um triz não o arrancava patacas de pele.. Seu coração disparava como se fosse explodir.
Um homem usando uma thompson 1928, metralhadora de tambor, estava atrás do balcão disparando. Os tiros eram ensurdecedores e cobriam o ambiente de fumaça, até que finalmente pararam e se pôde ouvir um barulho como se ela não tivesse funcionando. Tom virou-se e apontou sua arma para o homem, ele largou a metralhadora e fez expressão de espanto. Dois segundos depois caía no chão, com um tiro na garganta. Tommy deu 5 tiros e só um pegou nele, o que foi suficiente. A vidraça atrás foi estraçalhada pelos disparos.
Foi caminhando assustado pelo salão. Matar de repente se tornou pra ele necessário, se quisesse se manter vivo. Viu uma porta de madeira entre aberta. Correu até a saleta e viu Sam caído, com a roupa amassada e o rosto cheio de hematomas. Parecia ter levado boas bordoadas, mas não havia tanto sangramento.
Parecia ser um almoxarifado, havia caixas de utensílios em estantes de alumínio. Uma cadeira pairava caída atrás do mafioso, provavelmente o torturaram ali.
- Levante Sam, está acabado.
Ele não conseguia, segurava suas costelas.
- Ele realmente trabalhou em você, camarada. – E disse passando o braço do companheiro por trás de seus ombros e o ergueu.
- Vamos.
- Argh, Cristo! – Gemeu de dor.
- Não é nada, você ficará bem… O médico vai dar um jeito em você. – Passava pela porta, o levando até o salão com mesas de sinuca. – Você é durão como pregos.
Sentiu um cutucão nas costas e quando se virou, um valentão desferiu um soco em seu rosto. Com o soco, Tommy largou o amigo e voou por cima de uma mesa e caiu rolando no chão, aquilo realmente doeu suas costas e por sorte não trincou seu maxilar.
- Ah merda… – Esbravejou.
Levantou-se o olhando. Era alto, cabelo raspado, camiseta branca suja de sangue. Com certeza, o torturador. Ele encarava Tommy, buscando por
briga. Não tardou em atirar no peito do valentão, que nem sequer teve chance de sacar seu revolver. O impacto do tiro o empurrou para trás e foi para o chão.
Sam estava sentado próximo à porta do estoque. O bar estava destruído, com as paredes furadas e as algumas vidraças estilhaçadas. O sangue do mafioso de metralhadora espalhava-se pelo chão, em meio às cápsulas deflagradas.
- Basta, irei colocá-lo de volta no carro. Tudo ficará bem.
Um barulho de porta sendo aberta a chute chamou-lhe a atenção.
- Não se mova seu saco de merda ou eu vou esburacar você todo!
Tinha cabelo raspado como um militar e apontava uma pistola para os dois. Veio por uma porta atrás do bar, e pelos traços, parecia ser da família do fortão que acabara de ser morto. Era o líder do grupo, um homem estimado na família de Morello, mas parecia visivelmente descontrolado. Na outra mão, tinha uma maleta. A segurava com muita força.
- Vamos, tente! Você não irá passar por mim! – Dizia chacoalhando a arma.
- Com certeza, amigo. Apenas se acalme… Está tudo ok… apenas vá… sem problema. – Apazigou, Tommy.
- Só tenta! – Abriu a porta principal e saiu correndo.
- Não… Pegou… nossa… parte… pegue ele. – Usando seus últimos esforços, avisou Tom.
Tom correu até o homem caído, pegou seu revolver em sua calça e correu até o lado de fora. O conversível amarelo saía em disparada levantando nuvens de poeira, o jeito foi voar no em seu automóvel e acelerar atrás do fugitivo.
Correram pela estrada e após passar por um túnel, beirando uma fazenda, Tom fechou o conversível amarelo em uma curva e prensou o outro no muro. Saiu rápido do seu carro e caminhou até o fugitivo. Descarregou a arma em seu corpo. O corpo debruçou sobre o banco do carona. Foi atingido no maxilar e pelo peito soltando uma nevoa de sangue no ar. Na hora dos tiros, os outros carros da estrada deram ré e pararam longe, assustados. Tom pegou a mala de dinheiro, a adrenalina lhe percorria o corpo. Voltou para seu carro, deu ré e voltou até o motel antes que as autoridades chegassem. Com ajuda de Sam, levou os dois para um médico da família. Não podia seguir aos hospitais ou seriam pegos. Paulie apagou.
No caminho pensava que se aquilo era rotina, imaginaria como seriam os próximos trabalhos. A dor de ter matado pessoas só viria depois, à noite. Mas seus amigos e o chefe o ajudaram, apoiando-o e deixando claro que eles não teriam remorso. Fazia parte do trabalho, afinal.
Foi mais um massacre que a policia teve de lidar. E quem fez isso? Tommy. Os jornais chamaram de “A Chacina no Motel” e logo atribuíram à máfia, mesmo sem entender o porque do acontecido. Testemunhas avisaram do carro que tinha fugido e logo encontraram um pedaço de carne afogado em seu próprio sangue. Era o assunto da semana. De fato, Morello perdeu as estribeiras.
Para Thomas Angelo, então, isso iria se tornar normal em algum momento.
***
CONTINUA NA PARTE 3
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