Episódio 90 – Mafia: Pecado no Paraíso Perdido Pt.3

PARTE 1

PARTE 2

PARTE 4

PARTE 5

PARTE 6

PARTE 7

PARTE 8

PARTE 9

PARTE 10

PARTE 11 (FINAL)

Capitulo 5

1938

No elegante bar, o ex-taxista estava acomodado no sofá vermelho, encarando o detetive que o olhava com um lápis na mão. O sol pouco entrava no recinto, provavelmente nuvens passageiras. Havia anotado tudo que o mafioso dissera em uma pequena caderneta.

- E foi assim que eu entrei no negócio. Em um minuto eu era um taxista comum, na lei. No outro, um respeitado mafioso.

- Vocês não se incomodavam em… Matar pessoas? – O apontou com o lápis. – Normalmente as pessoas têm problemas com isso. – O inquiriu.

- Você sabe… Não sou uma dessas pessoas com sede por sangue, não preciso de violência na minha vida, mas também não tenho remorso. – Os dois se encaravam. – Eles queriam nos sobrepujar, então tivemos que sobrepujar eles. Sem desculpas. Foi tudo o mesmo pra mim, não estava interessado no destino dos outros. Todos diziam que era apenas negócios e que a família fica sempre unida…

O irlandês pegou a xícara de café e levou a boca. Sabia que o homem a sua frente havia se transformado em um monstro. Era outro homem agora, típico. Essa observação veio da nostalgia que o mafioso visivelmente expressou quando uma antiga música começou a tocar.

- Era diferente de viver sozinho e ninguém dando a mínima para você. De repente, você é respeitado por todos que encontra. Todos sabem que você pode ajudá-los, mas também sabem que você pode destruir suas vidas. E aí, todos tentam cair na sua graça.

Exagerou um pouco quanto ao seu passado, mas se sentia feliz por isso. Agora tinha amigos, não precisava mais trabalhar tanto quanto antes para suprir essa e tantas outras necessidades.

- E sobre a policia? – Perguntou, com interesse, testando a eficácia de sua corporação. – Você simplesmente foi embora de um massacre sem se incomodar? Não teve problemas com isso?

- Você trabalha para a policia! Você deve saber. – desafiou. – Você sabe que a máfia manda na cidade inteira. A família Salieri ganha em torno de 25 milhões todo ano. – Via o homem voltando a escrever. – Os jornais estavam cheios disso, mas ninguém via nada se quisessem continuar vivos. Pagávamos aos burocratas 6 mil por mês. Seus chefes tinham bebidas a preço de custo e recebiam extras por “trabalhos especiais” tanto do Salieri quanto ao Morello. Caso encerrado, falta de evidencias. – Balançou os ombros e pegou sua bebida.

O detetive o olhava sem reação, sem qualquer argumento para se defender.

- Tiras podiam até mesmo retirar cargas de bebidas para nós. Acho que você ouviu algo sobre.

- Então, e sobre seus dois amigos? – Desconversou, isentando-se.

- Bem, eles estavam melhores do que você acha. Salieri tinha um bom trato com seus garotos, e não é como se ele nunca perguntasse nada. Em algumas semanas, eles estariam saudáveis e de volta as ruas. O único que nos preocupava era Morello. Ele queria ser o chefão, coisa que Salieri não podia permitir. – Se ajeitou. – Salieri não tinha a intenção de ficar em segundo lugar. Você sabe… Uma pessoa se torna Don por sua cede de poder. – Enfatizou a ultima palavra. – E ele não se preocupa com qualquer outra regra que não seja a sua. É assim que é, detetive, então ele tinha que ser seu próprio chefe independente da policia, do estado, de qualquer um. É por isso que alguém se torna um Don.

Norman já havia parado de escrever e o apenas olhava falar, cruzando seus braços.

- Salieri e Morello queriam ter tudo isso. Eles ficavam lutando um contra o outro, mas ambos sabiam que se tudo explodisse seria um inferno. A grande diferença entre eles era nos métodos – Eu ouvi uma pequena história sobre Morello…

Algum tempo antes, pela manhã em um cruzamento, o caríssimo carro de Morello, um Silver Fletcher branco, bem cuidado. Logo atrás, um Bolt bateu em seu pára-choque traseiro. O carro do Don parou bruscamente. Três homens saíram incluindo o motorista, usando finos ternos pretos. Por ultimo, o chefão. Usava terno branco e chapéu creme, sapatos preto e branco. Era alto e duro, tinha aspecto sisudo e grosso. Em largos passos foi ver o dano em seu carro. Seus capangas ficaram apenas observando a rua, para impedir alguém que tentasse intervir.

O rechonchudo e calvo dono do carro saiu, desculpando-se.

- Eu… Eu… Eu não queria…

- Seu idiota! – Calou o homem com seu grito e aproximou-se. – Você sabe o que fez? – Continuava a gritar. – Sabe quanto esse carro custa? – Apontou para o veículo.

- Eu… Eu… Eu estava indo devagar, Sr. Morello… Eu não sei como… – Já havia visto aquele diabo nos jornais.

- Você quer dizer… Que eu – amenizou a voz com dramaticidade e olhou os transeuntes que olhavam em volta. – bati em seu carro? – E o encarou sério.

- Err… não… Senhor… Eu apenas… Eu queria… – Tremia de medo. Não é… senhor…

Morello começou a se aproximar devagar e olhava em volta. De repente, deu um soco com toda sua força na face direita do rapaz. O golpe o jogou contra o capô de seu carro.

- Nenhum… – Começou a falar, gritando. Bas- – Pegou a cabeça do homem e atingiu na lataria do automóvel. – -tardo…

Um policial próximo fingia não ver. Estava apenas a poucos metros do acontecimento. O rosto da vitima estava sangrando, quase disforme.

- Fica… no… meu… caminho! – a cada palavra, acertava sua cabeça no ensangüentado capô, até que o largou.

A cabeça do ferido escorreu pelo carro e seu corpo, já sem os sentidos, caiu. Morello deus uns passos e virou-se dando lhe um chute no rosto. Era apenas um padeiro que, naquele dia, iria pagar o vestido de noiva da sua filha. Agora, precisaria de sucessivas cirurgias em seu rosto e nariz. Perdera três dentes também, esfacelaram-se. Morello voltou para o carro ajeitando seu terno e seus capangas entraram em seguida.

Foi apenas depois dos mafiosos partirem que os pedestres aproximaram-se do desmaiado.

- Salieri construiu seu respeito como um homem de negócios. Todos sabiam que não precisavam temê-lo se eles fizessem o que deviam. Eles sabiam que se precisassem de algo poderiam procurar o Sr. Salieri. Então Salieri fez amigos, sempre ajudou pessoas com problemas diversos e esperava o mesmo de volta.

Norman olhou em volta, mas ainda atento. Apenas queria se certificar de que mais ninguém ouvia. Falar aqueles nomes era perigoso.

- Quando alguém cruzava com ele uma regra maior havia sido quebrada e todos sabiam o que iria acontecer. Morello era apenas um bastardo cruel, ganhou poder através da violência. Até seus amigos o temiam. A maioria apenas tentava evita-lo.

Havia deixado o detetive cismado.

Capitulo 6

1932

Haviam se passado dois anos desde que matou sua primeira pessoa. Tommy havia praticado sua destreza com as armas de fogo, já tinha se tornado um piloto de fuga e sabia roubar vários tipos de carros. Cresceu na família, ajudou seus familiares distantes dizendo que agora trabalhava no ramo da consultoria. Muitos problemas nasceram e morreram, assim como seus causadores. O tempo o endureceu.

Por volta das 21 horas, no bar do Salieri, o chefe e Thomas haviam se reunido. Quase não tinha clientes no recinto, Luigi enxugava o balcão. Já fazia um tempo que não via Sam e Paulie, agora estavam agindo em outras esferas. Tommy já não era mais um mero motorista, mudou completamente. Até sua postura havia mudado, era rígida agora, respeitosa. Tornou-se como aos dois que lhe iniciaram neste mundo. O velho o chamou com certa pressa.

- Ouça Tommy, tenho um trabalho delicado para você. – Estava sentado em uma mesa próxima a vitrine, fumava seu charuto. Não sei de alguém que poderá cuidar dele melhor que você. Você é bom motorista, e tem experiência. Bem, para deixar isso simples, amanhã as melhores maquinas irão correr na pista da cidade e eu apostei em um garoto que tem sido o favorito até agora. – Ajeitou-se, segurando seu charuto. – O ajudei um pouco em sua carreira. Gosto de carros rápidos e disse a mim mesmo que poderia ter um retorno desde investimento. Você entende… E então Ralphy começa a dizer que um europeu chegou e seu carro com certeza irá ganhar. Ralphy conhece carros, ele é muito bom com eles.

O don levou o fumo a boca, pausando.

- Mas fora isso, ele é um completo idiota. Porque ele não me contou antes que eu apostasse no garoto? – Bateu na mesa com força, mas sem perder a compostura. – E ainda, o que diabos está fazendo aqui um cara sabe Deus de onde, essas são as corridas americanas!

Parou novamente, tragou. Aquilo o acalmava.

- Eu estava com meu consiglieri pensando no que fazer quanto a isso, porque muitos dos nossos garotos apostaram no mesmo que eu e certamente não ficarão felizes se perderem sua parte. E como isso me faria parecer? Como um idiota, Tommy! Não posso deixar isso acontecer. Então eu e nosso Consiglieri decidimos como fazer isso. Se algo acontecer com ele, de jeito nenhum será jogo limpo. Não irei saborear minha vitória nunca.

Tommy não gostava de vê-lo furioso. Muita coisa acontece quando ele fica assim.

- Ralph me disse que ele sabe de alguém que vigia a garagem da pista de corridas. Hoje a noite você vai ir lá e levar o carro desse europeu para um mecânico que sabe o que fazer com essas maquinas. Ele irá olhar no dele e quem sabe melhorar o nosso. Assim que ele acabar o trabalho, você levará o carro de volta. É importante que o carro volte pro seu lugar antes que alguém perceba. E nem pense em bater o carro, ou ser pego pelos tiras. – O apontou o charuto, quase lhe queimando o rosto. – Estamos entendidos?

- Sim, chefe.

- Se você conseguir, claro, ganhará parte do lucro. Agora vá. Ralph irá lhe dizer onde e como.

Thomas levantou-se e saiu. Ele estava furioso, e não parecia nada simpático assim. Ele adorava corridas, mas odiava perder. Se Don Salieri perdesse, muitos outros perderiam também e naqueles tempos prestigio era tudo. O europeu de fato tinha um carro mais veloz. Era considerado a força dos novos regimes que assolavam o velho continente. Era um trabalho que exigia certa cautela.

Foi até os fundos e encontrou Ralph, consertava algum carro. Era uma noite fria, os rapazes haviam feito uma fogueira no pátio. Adentrou na oficina e o viu, mal arrumado e sujo, como sempre.

- Ei Ralphy, alguma noticia sobre esse trabalho?

- C… Claro Tommy.

- Você vai para a pista de corrida e pe-pegar “emprestado” aque…aquele ca-carro. Meu a-amigo Bo-Bobby trabalha lá. Dê a vo-volta por trás e entre pelo por-portão. F-Fale para Bo-Bobby que Ralph e-enviou você e-e ele vai te le-levar até o carro. Já está acertado co-com ele…

- E então?

- Vo-Você tem que levar ele para a oficina do meu a-amigo Lucas Bertone. É em New Ark perto da ponte Giuliano. Ele vai o-olhar o carro e a-ajustar ele um pouco… E então vo-você simplesmente leva de vo-volta.

- Deve ser fácil o suficiente.

- Mas v-você tem que fazer tudo até as 1:15 quando os vigias mudam então ninguém sa-saberá que alguém dirigiu o carro a noite. Na-Não deve haver nenhum arranhão no carro e te-tente evitar os tiras. Ele-Eles não podem pegar você! – Quanto mais falava, mais gaguejava.

- Hmm, e como irei até lá?

O mecânico o levou então até um carro do lado de fora e deu algumas noções de como arrombar sua porta. Pensou que seria necessário. Era de fato um idiota, mas de boa vontade. Começara a pensar que todos estes xingamentos eram injustos.

Rapidamente seguiu até os limites da cidade, descendo pela Pequena Itália e seguindo por Works Quarter chegando em coisa de 20 minutos. No caminho pensava o quão isso parecia complicado. Correr pelas ruas com um carro de corrida, fugir da policia e ter tempo limite. Para ele seria mais fácil derrubar o piloto de uma vez. Mas trabalho era trabalho, então, tinha de fazer.

O local era ermo, terminava em uma pequena estrada com mato em volta. Havia uma guarita de madeira e uma cancela de madeira que bloqueava a passagem por um corredor. Lá atrás estava o acesso do publico para as arquibancadas e as garagens.

Estacionou o carro e foi até a guarita, viu um homem rústico de boina e colete. Sua constituição era forte e seu rosto borrachudo. Os grilos ecoavam pelo matagal e o clima ficava cada vez mais frio graças ao sereno.

- Boa noite, você deve ser o amigo do Ralph.

- Isso mesmo.

- Ta bom, vamos pegar o seu carro.

Bobby foi até a cancela e a levantou, puxando para baixo uma enferrujada alavanca. O grande caibro levantou e os dois foram para o carro. Passaram pelo corredor que era fracamente iluminado por lâmpadas no teto, pegaram pela grama. O céu estava nebuloso, Tommy observava as pistas e arquibancadas, eram feitas de madeira. Alguns raros postes iluminavam timidamente o ambiente. Sempre gostou de corrida, mas agora que iria influenciar o resultado delas, ficou com um sentimento de que torceu a vida toda por algo já decidido. Passou pelos containeres e trios de carreta e caixas empilhadas no pátio de cimentado, até chegar às garagens. Uns armazéns com telha de zinco.

Bobby rapidamente correu até o alto portão da garagem, tirou sua chave e a destrancou. A visibilidade estava ruim, e o vigia teve de aproximar bem o rosto da fechadura. Empurrou o portão e Thomas pode ver um carro de corrida, azulado, daqueles clássicos que pareciam uma bala de revolver. Em volta, haviam estantes de ferro com tíner, graxa e outros utensílios de oficina.

- Ok, é esse? – Perguntou o mafioso.

- Isso cara, seja cuidadoso mesmo. Não deve haver um arranhão nele e evite os tiras como se fossem o demônio, porque esse carro é muito obvio.

- Ta certo.

- Aproximadamente em meia hora o segundo guarda virá, então você já deverá ter voltado, amigo. E seja muito cuidadoso, esse carro corre muito! – Advertia, gesticulando seus braços com força e nervosismo. – Deve ser o carro mais rápido do mundo, quem sabe.

- Certo Bobby, sem problemas. Vou cuidar disso em meia hora. – Acalmando-o.

Tommy entrou na garagem e observou o modelo. Era leve, uma batida com força poderia desmontá-lo. Estava tão polido que mais parecia um espelho. Bobby encostou-se em um latão e acendeu um cigarro para abrandar-se. Subiu ao carro e o ligou, quando pisou no acelerador, o carro voou para frente. Seu coração bateu forte. Era o tipo de modelo que em apenas 3 minutos, chegava aos 120 por hora.

O mafioso caiu fora dali, Bobby o observava com um sorriso desconcertado, mistura de nervoso com graça. Até então, Angelo tinha medo de não fazer a missão a tempo, mas agora o risco era bater com o carro e explodi-lo. Salieri acabaria com ele.

Foi incrível, em coisa de 10 minutos Tommy já atravessava a ponte Giuliano. Por um triz não acertou a ambulância que auxiliava um suicida. Embora Thomas nunca tenha sabido disso, o suicida não se jogou da ponte porque considerou aquele carro um sinal. Afinal, quando alguém vê um carro de corrida pelas ruas justo quando vai se matar?

Não teve dificuldades em achar a oficina de Lucas Bertone. Era logo abaixo da ponte, um ambiente pequeno e arrumado, discreto. A porta de ferro já estava suspendida, de forma que Tommy apenas precisou entrar. Freiou. Viu um homem de boina e macacão marrom, usando por dentro uma camisa cor de cerveja. Era avermelhado, típico sulista italiano. A primeira coisa que fez, foi tocar o pneu do modelo. Seus olhos estavam arregalados, sem dúvida, o mecânico estava inebriado.

- Ei você! – Falou animadamente. – Você é o cara do Sr. Salieri, certo? – Aproximava-se do mafioso, segurando uma mão na outra.

Tommy saiu da cabine do carro, com certa dificuldade. Não respondeu.

- Sou Lucas Bertone. – Estendeu a mão.

- Olá, sou Tom. – Apertou a mão do rapaz. – Eles dizem que você pode controlar esse monstro.

Era uma típica oficina, não tão grande quanto a de Ralph, mas bem arrumada. Havia um carro suspenso, provavelmente o mecânico estava trabalhando nele.

- Acredito que sim. – Observava o veiculo.

- Bem, melhor você ir rápido. – Olhou seu relógio de pulso. – Temos apenas 27 minutos.

- Hmmm, não é muito tempo.

Tommy ficou nervoso, olhou para o lado de fora. Bertone olhava todos os aspectos do automóvel curiosamente.

- Vamos ver o que pode ser feito. Você pode sair por aí um pouco.

Tommy foi fumar do lado de fora. Apenas ouvia o rugido do feroz carro. Apenas o cigarro podia acalmá-lo nessa hora. Quando terminou seu segundo cigarro e já não mais ouvia por algum tempo o barulho do veículo, jogou-o no chão e pisou. Foi para a oficina.

- Ei, como está indo aí? – Via Lucas arrumando as ferramentas no chão.

- Acabei de acabar! Você pode ir. – Respondeu, levantando-se.

- Mas você tem que se apressar, ele não irá correr tão bem como quando você o trouxe aqui. – Disse ao mafioso, que montava no modelo, para sair.

- Obrigado, Sr. Salieri agradece o seu trabalho.

- Pode deixar, dê meus cumprimentos a ele também. Se ele precisar de algo novamente, ficarei contente em ajudar. Apostei no mesmo piloto que ele.

Tommy acelerou pelas ruas de Lost Heaven. De fato, o carro fazia um barulho estranho e parecia desengonçado. Na curva para a ponte, ouviu as sirenes do carro da policia. Teve de acelerar e logo percebeu que as viaturas iam até o local aonde o rapaz ia se suicidar. Agora, o jovem estava sentado na beirada da ponte. Angelo mal pode ver a cena, muito correu para não se deparar com os tiras. Faltando coisa de 5 minutos, chegou até o circuito.

Estacionou o veiculo na garagem e saltou, encontrando-se com Bobby. Ele jogou seu cigarro no chão, pisou.

- Então você conseguiu, amigo! E o carro não tem sequer nem um arranhão!

- Obrigado, Bobby. Ele realmente ‘era’ o carro mais rápido do mundo.

- Pode apostar, estamos contentes que você cuidou disso. Apostei no carro do Don também.

- Parece que todos apostaram!

- Apostei nele como quase todos da minha vizinhança.

- Acredito que o piloto é muito importante também.

- Com certeza. Bem, não vou te prender aqui, boa noite.

- Se cuida Bobby, obrigado pela ajuda.

Tommy pegou o carro em que veio no pátio e voltou para o restaurante de Salieri. Realmente havia gostado de Bobby, era um bom rapaz. Depois dali, foi dormir. Havia se mudado agora para um chique apartamento na Pequena Itália. Livrou-se do aluguel, finalmente. Essa era uma de suas maiores aquisições desde que entrou no negócio. E, alem do mais, sua casa ficava próxima ao bar de Salieri, lugar onde ele estaria realmente seguro.

No dia seguinte, cedinho de manhã, todos se reuniram e foram até o circuito, exceto Sam e Paulie. Já fazia um bom tempo que estavam se focando em um trabalho sobre alguns agiotas de Tampa, mas mesmo assim apostaram no mesmo carro que Don.

O lugar estava cheio, em sua maioria homens. O céu estava claro, nem sequer parecia que na noite passada nuvens nebulosas cobriam o local. Corriam de um lado para outros assistentes e mecânicos, carros eram testados, podia-se ouvir de longe os motores rufando. Mulheres lindas faziam propaganda das patrocinadoras. Empresários discutiam entre si sobre a corrida, eram eles quem preparavam o terreno para que a máfia pudesse atuar.

Os corredores tiravam fotos para os jornalistas com suas imensas câmeras. Aos poucos as arquibancadas iam lotando, pais levavam os filhos para ver a corrida. Havia também os mafiosos, como sempre. Ficavam em trios ou duplas pelos cantos, fumando. As bandeirinhas balançavam ao sabor do vento.

Ralph estava maravilhado com aqueles carros, estava bobo. Salieri conversava com Frank. Um rapaz de terno, nervoso, chegou até Don Salieri e cochichou algo em seu ouvido. A cara do Don se fechou. Ele afirmou com a cabeça e foi ao ouvido de Frank.

- Frank, as coisas deram errado.

Naquela manhã, Tommy foi ver o trabalho. Entrou no bar com uma mão no bolso, o rosto ainda um pouco amarrotado de sono. Era sábado de manhã, afinal.

- Ei Luigi!

- Ei, Tommy! – O barman estava atrás do balcão, preparando tudo para receber os clientes que viriam para tomar o breakfast.

- Onde estão todos? – Dizia olhando em volta.

- Estão todos na pista, você se atrasou.

- Precisei dormir um pouco depois do trabalho de ontem a noite.

O telefone tocava, Luigi foi atender, Angelo escorou-se no balcão.

- Claro. – E levou o fone ao ouvido. – Alô? … sim… – Olhou para Tommy. – Senhor, ele acabou de entrar… certo… É pra você, Tom. – Passou o telefone para o mafioso.

Thomas levantou-se do banco e foi atender.

- Alô?

- É o Frank, Tom. Você fez tudo certo ontem, mas nós precisamos da sua ajuda novamente. – Ele olhava Luigi. – Venha para a pista de corrida agora. Aquele cara que deveria ganhar a corrida teve seu braço quebrado por um capanga. – Tommy imaginou tudo, engoliu seco. – Provavelmente, não é coincidência… De qualquer forma, você vai correr.

- Mas… Mas… Frank… eu… – Buscava socorro no barman, que foi enxugar copos mas continuou atento ao papo.

- Tom, faltam 30 minutos para a corrida e não tenho tempo para ensinar alguém a dirigir. Cristo, Tom, isso diz respeito a muito dinheiro… Espero que você tenha entendido isso, certo?

- Certo.. ok… Frank, mas…

- Espero te ver aqui em alguns minutos. – E desligou.

Agora era apenas som da ligação desligada. Tom olhou o fone e o desligou.

- Você não parece muito animado.

- É porque não estou. – Tommy ajeitou o terno e saiu, pegou o mesmo carro do dia anterior e acelerou a toda até o circuito.

Chegou rápido, a seriedade de Frank o assustava.

Encontrou Frank e Ralph próximo as garagens, que entrava para verificar o carro. O mecânico estava com sua roupa de sempre, o consiglieri bem arrumado como sempre e Salieri já havia ido para a arquibancada com toda a certeza de que Thomas Angelo correria.

- Ei Tommy, sabia que podia contar com você. – Apertou a mão do mafioso.

- Você realmente quer que eu faça isso? – Tentou se safar. – Nunca corri antes!

- Certo, eu sei que não será fácil, mas não temos escolha. – Tocou no ombro de Tom e começou a caminhar com ele, levando as mãos para trás. Seu terno estava folgado. – Se você puder fazer isso, não vamos perder.

- Pareço com alguém que pode fazer isso? – Argumentou. – Nem mesmo sei as regras.

- Veja, é fácil. Você corre 5 voltas e precisa chegar em primeiro para ganharmos. Se você chegar em segundo, toda a grana será perdida, mas como regulamos o carro daquele panaca tudo deve correr bem. Também, nessa corrida é normal que alguém bata em você, então preste atenção nesses outros bastardos. Boa sorte, Tom… Sei que você pode fazer isso. – Deu as costas e foi entrando na garagem.

- Bem, eu não acredito nisso. – Tommy pensou, até falar.

Frank parou, e devagar virou-se olhando o rapaz. Tirou o pigarro da garganta, levando a mão até o nó da gravata. Voltou e colocou a mão no ombro dele.

- Tom, metade da vizinhança e todos nossos rapazes apostaram no garoto do Don. – Sua voz estava muito mais séria. – Você sabe o que significa perder? O Don irá perder, você vai fazer perdermos todo o respeito que fizemos colocando nossos traseiros na reta. Pessoas confiaram em nós com seu dinheiro. Você entende o que está em jogo?

- Certo, entendi, Frank. – Nem mais olhava o velho, a pressão foi muita. – … Eu entendi.

- Vai lá, filho. Mostre a eles do que você é feito. – Abrandou a voz e deu um tapinha em seu ombro, voltando para a oficina.

Minutos depois, Thomas havia virado um corredor. Os auxiliares da pista guiaram ele até o vestiário e teve de vestir uma colada roupa branca, óculos que o fazia parecer um besouro e uma toca tampando os ouvidos. A roupa estava apertada, era para o outro corredor. Ele observava seus concorrentes e sabia que podia ganha-los em uma disputa na mão, mas no volante, ele era apenas um taxista habilidoso e nada alem disso. Seria difícil.

No corredor que os guiava até as garagens, para que pegasse seu carro, viu o europeu, dono do carro que ele havia avariado. Era louro e tinha um sorriso audaz. Seu tradutor transmitia o que ele dizia para os jornalistas, que anotavam tudo em seus blocos e tiravam fotos. Sem dúvida, ele era o mais cotado. No caminho viu Bobby, que se espantou ao vê-lo ali. Tommy apenas balançou a cabeça para ele.

Seu coração batia muito forte. Estava em um carro creme, e a visão era totalmente diferente. A platéia gritava, urrava. Viu Salieri e Frank, assim como todos os outros associados que regularmente via no bar. Ralph havia ajustado o carro e lhe dado algumas dicas momentos antes. O problema é que o mafioso não entendeu bem, o garoto gaguejava muito.

Apertou suas mãos com luvas no volante. Pisou no acelerador. Mais rápido do que poderia imaginar, já estava competindo, e por ultimo. Na partida, o carro do europeu quebrou e soltou uma nuvem de fumaça preta. Tommy quis rir, mas a velocidade era tanta, que nem podia abrir a boca.

Rapidamente deu a primeira, segunda volta. Apenas havia passado de três carros. Estava em quinto quando deu a terceira volta. Faltavam apenas duas. Aceleravam e rapidamente chegou no quarto lugar. Finalmente alcançou um carro vermelho. O piloto começou a lhe bater, a fim de deixá-lo para trás. Os dois continuavam páreo a páreo, esbarrando suas rodas. O que o outro piloto não podia esperar era Tommy ser um piloto de fuga.

Tom pressionou seu carro em uma curva cercada de areia. O carro do oponente subiu por cima do monte e foi para o gramado, era tempo o suficiente para ele tomar o terceiro lugar. No entanto, até o fim da volta, não pegou o primeiro lugar. Agora tinha apenas mais uma chance. O primeiro estava muito a frente, mas só poderia alcançá-lo se tirasse da reta o outro.

Começou a chocar seu carro na traseira do segundo colocado, mas ele era do tipo esperto, tinha as manhas. Quando Tom foi lhe dar a terceira batida, para tira-lo de reta, o carro repentinamente foi para o lado e o carro de Tommy acabou derrapando. Para não se chocar em uma pedra, teve de frear. Já podia ouvir os carros dos outros se aproximando. Não podia desistir, havia a carga de mais de 100 homens sobre ele.

Acelerou novamente. Não deixaria um qualquer lhe sobrepujar assim. Passou por ele em uma curva e foi administrando. Mais outra curva e ele agora finalmente podia ver o primeiro, mas ele estava com vantagem. Logo atrás dele, o terceiro colocado, querendo seu lugar. Tommy sabia que devia continuar em frente, sem perder velocidade e tempo nas curvas e evitando subir no gramado.

Foi difícil, mas logo Tommy estava no encalço do corredor. Era um carro vermelho, mas maltratado. Provavelmente o piloto era do tipo descuidado. Este foi um erro que quase custou a vida do mafioso. Minutos depois, próximo a ultima curva, o homem começou a bater com seu carro, jogando-o para o canteiro. Tudo fez sentido, finalmente: O carro estava mal tratado porque ele sempre jogava os veículos dos concorrentes pra longe. Mas nisso, Angelo era bom e já tinha descoberto como aquela pista funcionava.

A ultima curva tinha uma elevação paredal, ou seja, a pista tinha uma parte inclinada. Thomas não deixou o oponente subir naquela elevação, o manteve embaixo. O objetivo era pegar velocidade no fim da curva, onde a pista tinha uma pequena rampa que daria algum impulso. Foi assim que o primeiro lugar virou segundo e com a diferença de apenas 1 metro e meio Tom passou pela linha de chegada. Teve seu momento de vencedor, mal podia acreditar. Seu modelo estava destruído, os eixos das rodas nem sequer mais agüentavam.

Venceu, finalmente.

Thomas Angelo foi ovacionado por todos os apostadores. Subiu no pódio, no primeiro lugar. Estava imundo, todo sujo de graxa e óleo, mas vitorioso. Nem ele mesmo confiava em seus dotes como motorista, mas sabia que ganhou por sorte também. Para corridas assim, os outros eram bem melhores. Uma mulher o colocou um cordão de flores no pescoço, e um senhor, o presidente do circuito, lhe trouxe o troféu. Ele ergueu o troféu e os aplausos aumentaram. O que ficou em segundo lugar acenava a todos, o em terceiro parecia chateado. Foi maravilhoso, Tommy acenava, no fundo estava feliz por não precisar ver a fúria de Salieri. Isso era mais importante que o dinheiro que ganharia.

Comemoraram muito, mas Salieri não tocou no assunto. Apenas mais tarde, na segurança do bar, que o Don quis ver seu garoto.

- Sabia que você não ia nos deixar na mão, Tommy. Você realmente é um de nós agora. Muitas pessoas fizeram dinheiro nessa corrida, Tommy, e você tem todo o crédito. Então, você não ficará sem nada. Vá ver Lucas Bertone, ele também apostou e ganhou uma pilha de dinheiro, então ele quer recompensar você também, de alguma forma.

- Ta bom, eu irei.

Tommy retirou-se do lugar, o bar estava cheio dos apostadores. Até mesmo Luigi, deixando sua filha em seu lugar. Na saída, uma provocante mulher no balcão o parabenizou. Thomas era uma celebridade na Pequena Itália. No dia seguinte, Tom foi visitar o mecânico. Ele o ensinou a roubar carros de luxo e o ajudou a roubar um carro de luxo na prefeitura na Ilha Central.

Para Thomas ser um gangster não era tão ruim. Jamais conseguiria tudo isso de outra forma. A vida estava boa.


***

CONTINUA NA PARTE 4

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PARTE 5

PARTE 6

PARTE 7

PARTE 8

PARTE 9

PARTE 10

PARTE 11 (FINAL)

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