Episódio 93 – Mafia: Pecado no Paraíso Perdido Pt.5

Capitulo 10
Paulie sempre foi cabeça quente, sempre foi um rapaz perigoso. Ele podia estar rindo com você e depois lhe enterrando há 20km dali por causa de um simples comentário. E foi isso que aconteceu em uma reunião dos rapazes no Salieri’s. Tommy já fazia parte do negócio.
Naquela noite de sexta-feira estavam Paulie, Sam, Tommy e outros três garotos. Um deles era Robbie Serrone e era apenas um bookmaker tentando se criar. Por sempre ter sido querido no bairro, acabava tomando muitas liberdades.
- E aí eu disse “amigo, eu só estou aqui no meu carro, não posso?” e o tira queria ver meu porta-malas. Diabos! “Vá ver então o de sua mãe” o idiota riu pra mim! Dá pra acreditar? O idiota riu pra mim! – Paulie terminou a história, estava na quina da mesa.
Todos riram, ele era um homem engraçado.
- Ah, você diz isso agora… Quando você era um garoto de rua ia se mijar todo! – Robbie falou, ajeitando as cartas na mão.
- Como é que é? – Perguntou Paulie. – Não ouvi muito bem, podia repetir?
- Que você devia ser um pezzonovante e baixinho!
Paulie apenas o ficou olhando.
Todos os rapazes uivaram com o comentário, mas sabiam que Serrone estava apenas brincando, era o jeito dele. Sam, no entanto, conhecia o amigo e apenas o observava com seu jeito calado. Paulie já havia se cansado daquele rapazinho. Sempre falando besteira e comendo, o gordo sempre falava de seu tamanho e o chamava de vadia.
Ele poderia ser aceito por todos os outros, mas para ele já havia sido o suficiente. Decidiu que naquela noite iria matá-lo. Sam percebeu isso quando Paulie o olhou nos olhos e afirmou com a cabeça. Jamais poderia deixar um peixe pequeno trata-lo assim.
Horas depois, já de madrugada, quando o bookmaker ia entrando em seu Falcone, Sam prendeu seu braço na porta do carro e Paulie o matou com um pedaço de ferro, dando-lhe repetidas pancadas pelo corpo. Robbie estava preso à porta, mas quase rasgou sem braço tentando fugir.
Morreu envolto de sangue e miolos. Salieri não gostou disso, mas Paulie aos poucos começava a se mostrar incontrolável. O Don chamou Sam e Paulie para uma reunião na sala.
- Não gostei do que fizeram. A policia é que encontrou o corpo. Por que fizeram isso?
Paulie e Sam se olharam, mas Sam nada disse.
- Chefe, ele sempre me desrespeitava! Ele precisava ser um exemplo para os outros. Sam me ajudou porque eu pedi, ele não tem nada com isso.
Salieri olhou Frank, que como sempre estava ao seu lado.
- Isso aqui não é uma bagunça, não vamos agir como os caras do norte. Somos sicilianos. Por isso, vou ter que penalizar vocês. Quero que os dois resolvam um problema para mim em Tampa, vocês vão precisar se afastar da cidade por uns tempos. Os policiais estão cuidando disso, já que vocês nem sequer sumiram com o cadáver. Quero que vocês sejam exemplos pros outros também, isso não é bagunça. Estamos entendidos?
E foi assim que os dois foram para a Florida resolver uma situação para o Don. Salieri gostava dos dois, especialmente Paulie. O mafioso era um homem temível, marcava qualquer lugar que passasse. Foi uma bela aquisição para a família, tira-lo das ruas foi a prova de que há muitos talentos correndo o risco de se perderem. O velho apenas lamentava-se sobre a natureza dele que talvez o encerrasse cedo demais.
Capitulo 11
Na tarde seguinte após o castigo contra a gangue, logo quando Tommy chegou, Frank o chamou para passear. Começaram a conversar caminhando pela calçada. O consiglieri parecia aborrecido, estava olhando para frente com as costumeiras mãos para trás. O céu estava claro e o transito abundante.
- Sua ultima missão não deu muito certo, Tom. Você matando todo mundo significa um monte de problema para nós.
- Eles tentaram estuprar a Sarah! – Justificou-se. – Os tiras deveriam me agradecer.
- Eu sei, mas aquele que você deixou escapar irá causar problemas.
- Como? Não deixamos ninguém escapar! – Tommy o olhou surpreso e parou de caminhar. – Estão todos mortos!
- Um sobreviveu. Tiraram ele dos destroços do carro.
- Merda… – Olhou pra longe.
- Aquele que você matou era filho de um conselheiro da cidade, amigo do prefeito e cúmplice do Morello. – Os dois voltaram a caminhar. – E aquele que sobreviveu vai chorar no ombro do conselheiro. O papaizinho não amava muito o seu filho, mas nesses casos uma pessoa pode lembrar um monte de coisas boas… A propósito, o funeral é hoje.
Agora, todas aquelas noticias nos jornais faziam sentido.
- Merda, eu não posso fazer…
- Você tem sorte que o segundo não sabe quem você é e não pode te entregar. Mas não é por isso que te chamei. Tom, tenho um trabalho delicado pra você hoje.
Frank parou ao lado de um carro azul, e Tom o acompanhou.
- Vamos, entre no carro.
Tom foi até o lado do motorista, entrou. Destrancou a porta para o conselheiro e a abriu. Frank entrou logo em seguida, acomodando-se na cadeira.
- Um proprietário de um dos negócios que o Don investiu muito dinheiro repentinamente decidiu esquecer de suas obrigações e se juntou com o Sr. Morello. Parece que Morello está testando nossos limites. Não vamos entrar no jogo dele.
- Então, o que faremos?
- Nós vamos explodir o lugar inteiro.
- O quê? – Perguntou assustado. – Que tipo de negócio é esse?
- Um hotel. Err… Bem… é um bordel, Tom. Mas nenhum bordel comum, é um lugar para a alta sociedade.
- E eu devo acabar com todos eles? – Perguntou, sem querer creditar.
- Claro que não… Nos só iremos acabar com o proprietário e explodir seu escritório. Deve ser um aviso bem forte pros outros.
- Nós significa eu certo, Frank? Eu acabo com o proprietário e eu explodo o hotel.
- Exatamente. – Respondeu com calma. – E há ainda mais uma coisa. Uma de suas garotas está passando informações sobre nossas atividades para o Morello. Precisamos que ela seja liquidada também.
- Frank… Tenho que matar uma mulher? – Titubeou um pouco, não queria acreditar neste porem também.
- Que azar, hein? – Ironizou. – Aqui está uma foto dela.
Deu na mão do mafioso a foto de uma mulher andando pela rua. Ela era atraente.
- Ela é bonita e me parece familiar. – Encarava o papel. – Está certo que é ela?
- Infelizmente sim. Sua grande boca nos fez perder muito dinheiro e alguns dos nossos.
- Por que Paulie ou Sam não fazem isso?
- Nós somos conhecidos no lugar de ponta a ponta. Eles vão ser mortos antes que possam fazer algo.
- Hmm… então qual é o plano?
- É em Downtown, o Hotel Corleone. Ache o chefe e mate-o. Você pode fazer em publico, será um bom aviso. Então, cuide da garota. O escritório do proprietário é no último andar. Pegue qualquer documento e dinheiro que você achar e então arme os explosivos. Você não terá tempo pra mais nada.
- Não vai ser um piquenique. – Brincou.
- Eu sei. – Afirmou com a cabeça. – Mas se não cuidarmos disso agora, seremos os próximos da fila.
- Pode ser que você esteja certo.
- A arma e explosivos estão aqui no carro. Tom, boa sorte.
Frank saiu do carro e voltou para o bar. Tommy ligou o carro e deu partida.
- Velha e boa máquina. Eu costumava trabalhar como taxista numa dessas. Agora, posso entrar sem chave. – Pensou consigo mesmo, ao dirigir o Falconer.
Em coisa de quase 1 hora, chegou ao Hotel. Havia uma marquise com o nome do hotel escrito em letras contemporâneas e uma porta de madeira na entrada. Haviam carros chiques estacionados por perto, provando que a clientela era rica de fato. Foi no porta-malas e abriu, vendo uma pequena bolsa chique. Ao lado, havia um lenço grande de seda cara embrulhando uma Colt 1911. Tommy desembrulhou e rapidamente guardou a arma no bolso do terno, fez o mesmo com o explosivo tomando o devido cuidado. Entrou no local, passando pela porta de madeira inicial, e outra em seguida.
Havia dois seguranças na porta usando finos ternos. Um marinheiro subia as escadas com uma dama loura e outra morena de vestido vermelho passeava pelo salão. As paredes eram cobertas de madeira de fina carpintaria e um papel de parede esverdeado e clássico. De frente para a porta, estava o atendente, um velho atrás de um livro de nomes. Tinha uma escada do lado para os andares de cima e um elevador do lado, mas parecia não funcional e uma outra porta na extrema direita que levava para um apertado corredor.
Caminhou até o atendente.
- Boa tarde, onde encontro o gerente, por favor? – Perguntou com muita educação.
- Ele está no restaurante do hotel almoçando, senhor. É logo após essas portas. Ele é o homem de terno branco. – E apontou para um corredor a esquerda de Tom.
- Muito obrigado!
Tommy foi até o local, passando por algumas mulheres volupiosas e homens carrancudos distribuídos pelos sofás periféricos. Provavelmente a segurança dele era provida por Morello e eles o matariam com grande satisfação. Passou pela sala de estar e chegou ao restaurante desviando do apressado garçom. No canto da sala, pode vê-lo conversando com um velho bem trajado. Havia um segurança almoçando também, sozinho em uma mesa.
Viu em uma mesa um homem na meia idade de terno branco e cabelo penteado com gel para trás conversando com um velho quase calvo. No meio dos tilintares dos talheres, caminhou até a chique mesa e olhou para o gerente. Os dois homens pararam a conversa e olharam Tommy sem entender sua presença.
- Essa é a forma que todos acabam quando se vendem para o Morello.
- O que você quer dizer? Qual é o seu negócio aqui?
Tom tirou rapidamente a pistola de seu terno e apontou para o gerente. Só foi o tempo de ele fazer uma careta de medo e o gatilho foi apertado. O semblante dele morrendo ficou gravada em sua mente, era uma expressão de quem não tinha culpa. Não alimentou essas idéias, provavelmente aquele gerente apenas tentou sensibiliza-lo.
Jorrou-se sangue no papel de parede atrás da cabeça do gerente e ossos quebrados. Uma nevoa de sangue foi lançada ao ar, como se fosse um perfume. O homem caiu com a cabeça no macarrão que comia e instantes depois uma poça vermelha nascia no prato. Apontou a arma para a companhia do morto, mas ele abaixou a cabeça na mesa e a cobriu implorando por sua vida.
Rapidamente virou-se para o segurança e o pegou tirando seu revolver. Não hesitou em atirar no homem, mas evitou acerta-lo em pontos vitais. O funcionário caiu sobre as cadeiras com um tiro no ombro e ficou no chão gemendo de dor. O desespero instalou-se no local. As pessoas saíram correndo a toda para o lado de fora. Agora, o mafioso tinha mais um problema: A policia que não tardaria em chegar.
Correu para a recepção apontando a arma e quando viu os dois seguranças se aproximando armados, pelou o balcão e caiu ao lado do recepcionista. Ele puxava algo escondido em uma gaveta, mas desistiu quando Tom o pegou pelo pescoço e levou o cano da arma à sua fronte. Embora ele não soubesse, o velho puxava discretamente uma Lupara, a clássica espingarda de cano serrado que estava ali à disposição para os problemas.
- Ninguém se aproxima! Não quero vocês, se tentarem algo, matarei o funcionário e vocês. – E puxou em seguida o velho para uma pequena salinha onde se organizavam os arquivos.
- Você conhece essa mulher? – Tirou a foto que ganhou do consiglieri e apresentou a ele.
- Não… – Falou apavorado.
- Você realmente não conhece essa mulher?! – Falou com raiva.
- Certo, certo… Ela está no terceiro andar, no quarto 302.
Tom viu um quadro de chaves na parede. As fileiras eram organizadas por andar. Tinham poucas chaves ali, e uma sozinha no alto. Só poderia ser da sala do Diretor. A pegou e guardou no bolso da calça.
- Não tente nada e nem fale nada a policia, entendido? Meu problema não é com você. Agora me diga alguma subida rápida para os andares.
- O elevador, o elevador!
- O elevador está quebrado! – E deu no rosto do velho uma tapa com a mão que segurava a arma. – Não brinque comigo!
- Ta bom ta bom! Há a escada de emergência, no corredor logo a frente.
- Certo, eu te levarei comigo até lá.
Tommy saiu apressadamente, ainda o levando como refém. Os seguranças não fizeram nada, afastaram-se. Passou pelo corredor e algumas pessoas aterrorizadas, até chegar à ultima porta do corredor. Os seguranças seguiam Tom em passos curtos e com a arma em punho, apenas esperando um deslize. Abriu-a com um chute. Era de fato uma saída de emergência. Havia latões, vassouras e outros utensílios de limpeza. Uma escada de ferro levava até os andares superiores.
O mafioso empurrou o recepcionista para o chão e pulou para a saída de emergência. Fechou a porta e jogou os latões e vassouras para impedir de abrirem à porta e subiu rapidamente a escadaria, com a arma em mãos. Chegou ao terceiro andar e saiu no corredor apontando a arma para os lados. Era nojento, apenas podiam-se ouvir gemidos e gritos, era de fato uma casa de má fama. Um tapete de cores vivas e tons dourados cobria o chão, os detalhes em madeira continuavam. Era realmente tudo luxuoso.
Tom focou-se em procurar pelo quarto. Olhou rapidamente a foto da dama, para que não se confundisse. Finalmente achou a porta que procurava, ficava próxima a uma janela no fim do corredor. Percebeu que a porta estava aberta. A empurrou devagar, observando atentamente o interior. Era um chique quarto com janelas e caras cortinas ao fundo, um tapete quadrado vermelho com uma mesa e poltrona em cima. Pode ver parte de uma cama de casal no canto esquerdo. Havia outra porta, próxima à entrada. Ruídos vinham de lá.
Tirou a arma e olhou pelo corredor para confirmar se ninguém o seguia, depois fechou a porta com cuidado. Em passos rápidos, abriu a porta com força. Era um banheiro. Quando viu uma pessoa banhando-se na banheira, não tardou em apontar a pistola.
- Aaah! O que, Tom?! – Disse a mulher na banheira.
Quando os olhares se cruzaram, Tom lembrou de onde a conhecia. Era a mulher que o elogiou no dia da corrida, quando ele saía do Bar. Eles nunca conversaram, mas já ouvira falar nela e sempre a via por lá.
- O que… O que você está fazendo?! – Estava assustada.
- Michelle?! – Perguntou surpreso, pegou a foto e olhou, sem crer. Ela era, de fato.
- O que ta acontecendo?! O que você vai fazer?! O que quer de mim?!– Encolhia-se na água com bolhas de sabão.
- Sinto, Michelle, mas ouvi que muitos foram mortos por você ter aberto sua boca e alguém perdeu muita grana. Você é perigosa para nós.
- Isso… Isso não é verdade! – Gaguejava de medo. – Não poderia ser verdade!
Tom continuava mirando a arma para ela.
- Tom! Espera! Eu não sabia que tinha… machucado alguém! Queria ajudar meu irmão!
A arma na mão de Tommy começava a abaixar. Ele pensava, encarando-a agora com pena.
- Sabia, isso só poderia acontecer comigo, uma grande enrascada… Não posso simplesmente matar uma jovem. Uma jovem tola e inocente que só queria ajudar o irmão, provavelmente um verdadeiro inútil… Por outro lado, vale a pena ser morto por isso? – Pensava consigo.
Parou de pensar sobre e apontou a arma com vigor novamente.
- Se vista e saia daqui.
- …Obrigada…
- Esse lugar vai explodir logo. Não quero ver você nessa cidade novamente… Ninguém pode te ver aqui de novo. – Falava apontando a arma pra ela, como faria com o dedo.
- Muito obrigada.
- Nessa cidade, você está morta. Vá embora e nunca mais apareça aqui, entendeu?
- Prometo a você que nunca mais ouvirá falar em mim de novo.
Thomas saiu do banheiro e fechou a porta. Estava aliviado por não ter precisado matá-la. Talvez isso o colocasse em encrenca, mas ele não se imaginava, de forma alguma, matando uma moça. Deixou as preocupações para depois. Correu para o corredor e voltou à escada de emergência, subindo um andar e chegando ao ultimo e quarto andar. Quando saiu pela porta, deparou-se com um segurança esperando-o. Atirou em seu ombro e o homem cambaleou para trás, caindo sobre uma mesa cheia de cinzeiros. Acelerou, o disparo chamaria a atenção.
Apressou-se até o corredor e achou a porta do diretor. Havia a placa Diretor escrita e um tapete vermelho levando até ele. Tirou a chave e a abriu rapidamente. O sol entrava tímido no escritório. Uma cara cadeira de couro estava atrás da mesa, que tinha cadernos e um maço de dinheiro. Havia uma garrafa vazia de uísque também. Tommy pegou os documentos e os dólares sobre a mesa, buscou mais alguma coisa relevante nas gavetas. Depois, retirou os explosivos e plantou de baixo da mesa. Girou uma pequena manivela, acionando o timer.
Correu eu disparada pelo corredor, a toda velocidade. Não conseguiria fugir por outro caminho e o que lhe restou foi voar pela janela e alcançar o outro
prédio. Na explosão, o impacto ajudou Tommy a pular. Ele varou o vidro, estilhaçando-o. O fogo comeu todo o corredor, arrebentando todas as portas. Caiu rolando no telhado do outro prédio, com seu terno e face cortada. Levantou com dificuldade, tremendo e esfolado. O fogo escapava pela janela.
- Apenas trabalho de rotina… – Brincou com sua própria situação.
Já se podia ouvir o som das sirenes de policia se aproximando. Subiu pelos beirais e alcançou as escadas de emergência, passou pelas calhas. A policia começava fechar o perímetro. O objetivo do mafioso era alcançar a igreja próxima, a maior da cidade. Por ali a policia não o encontraria. No entanto, quando chegou ao fim do caminho, em um prédio em reforma, deparou-se com um espaço muito grande para se pular. Estava encurralado.
Estava sobre os andaimes no prédio, que eram feitos de tabuas e madeiras encaixadas. Achou uma escada de mão, feita em madeira deixada pelos pedreiros. Era isso ou ser pego pelos tiras. Com o coração batendo forte,
Tommy jogou a escada até o telhado da igreja, era pesada. Conseguiu fazer uma ponte assim. Ficou de quatro e começou a atravessar a bamba escada, que a toda hora o assustava. De certo, a queda seria mortal.
Quando atravessou, levantou-se com extrema pressa. A escada desequilibrou-se e caiu no beco. Por um triz, o mafioso não iria junto. Seus batimentos cardíacos foram estabilizando-se novamente. Podia ouvir agora as sirenes também dos bombeiros. Começou a entrar pelo telhado da igreja, havia muitos ninhos de pombos. Desceu as escadas de madeira que ringiam.
Ao descer, ouvia alguém falando. Algo como um velório. Embora com cortes pelo rosto e corpo, Tommy agradeceu a Deus por ter escapado ileso daquilo tudo.
Capitulo 12
Tommy desceu as escadarias da igreja que levavam até o telhado. No fim do caminho, viu uma grande tabua quadrada de compensado tampando a entrada. Pela fresta pode ver um caixão e um padre falando.
- …e foi tirado de nós de forma inesperada. O senhor aguarda seu rebanho de braços abertos e aqueles como Billy serão esperados no reino dos céus. – Discursou o padre.
Mal podia acreditar. Estava na missa do garoto que ele matou naquela noite chu
vosa, aquele jovem no caixão era o líder da gangue. Passou os olhos pelas cadeiras e viu um casal chorando, provavelmente os pais. Uma mulher de meia idade chorava, tinha cabelos castanhos claros e era amparada por um homem louco e rígido. Identificou logo à frente o rapaz que supostamente havia quebrado o pescoço, e próximo dele um dos homens que ele espancou.
- Billy era um bom filho, irmão e amigo. Todos nós iremos lembrar dele desta maneira e rezar por sua salvação já que ele nos fez tanto bem.
Era um show de hipocrisia. Havia uma grande coroa de flores no caixão e outros arranjos à volta acompanhado de velas. Atrás um grande painel com imagens sacras. O padre, usando a roupa cerimonial, falava próximo ao defunto. Era calvo e seus poucos cabelos eram negros como a noite, suas roupas eram brancas e uma faixa roxa passava por trás de seu pescoço e descia pelo tórax. Estava atrás de um pequeno pedestal.
- E agora o amigo do Billy, que estava com ele durante os últimos momentos de sua curta vida aqui na Terra. Ele gostaria de dizer algumas palavras. – E levou a mão aberta para o jovem. – Venha filho.
Ele levantou-se, e veio se aproximando em passos rápidos.
- Obrigado, padre…
O rapaz foi para o lugar do padre, que o deu licença chegando ao lado. Estava cheio de curativos, havia tirado a tala do pescoço no dia anterior. Os sinais da batida persistiam em seu corpo. Tommy temia ser visto, não podia voltar, nem invadir o lugar. Escondeu-se quando ele começou a falar.
- Sabe, eu gostaria de homenagear o Billy hoje e contar a ele que o considerei como meu próprio irmão e que sua morte foi uma grande perda pra mim.
Enquanto ele testemunhava sobre o amigo, o padre que conhecia tão bem aquela igreja notou algo estranho onde Tommy estava. Foi caminhando até o lugar pra ver o que era. Imaginou que fosse um rato, ou qualquer coisa assim. Tomou um susto quando afastou o bloqueio e deparou-se com o mafioso.
- Uh? Err… O que está… Como?
O jovem olhou o padre de soslaio, e quando notou a situação, olhou novamente.
- Esse é o cara! – Gritou ao ver o escondido.
Todos os presentes pularam da cadeira.
- Esse é o canalha que matou o Billy! Peguem ele! Se abaixe, padre!
Agora a situação havia se complicado. O jovem tirou seu revolver, junto do Tio do morto e o outro membro da gangue. Começaram a disparar contra a porta. O padre correu para uma sala e se trancou lá, os presentes fugiram as pressas pra fora da igreja.
Para sorte de Angelo, nenhum deles tinha tanto preparo quanto ele. Correu para trás do grande painel de madeira e respondeu alvejando-os com as balas que lhe restavam. Minutos depois, o tio estava no chão desmaiado com um tiro na coxa. O amigo de Billy sobre os bancos de madeira da igreja, com um tiro na barriga. Estava vivo e sangrando, morreria depois a caminho do hospital. O outro membro da gangue estava ao chão, com um tiro fatal no peito. O cheiro ferroso de sangue misturava-se ao cheiro de velório, derivado das velas em desgaste.
As imagens e estatuas sacras foram destruídas pelas balas. Os arranjos de flores e velas destroçados. Furos pelas colunas e paredes.
Tommy aproximou-se do caixão e ficou observando o corpo. A porta abriu-se repentinamente e o mafioso apontou a arma naquela direção. Era apenas o padre que havia saído de seu esconderijo ao cessar dos tiros.
- Oh, apenas sou eu! Meu filho, não atire. Estou desarmado! – Já estava com as mãos levantadas.
Thomas abaixou a arma e deu as costas para o padre.
- O que você fez, meu filho? Tanto sofrimento por nada! – Aproximava-se. – Deus é misericordioso, mas isso é terrível… Você não sabe que assassinato é o mais grave pecado?
- Eu sei… Padre. Mas de alguma forma tudo acabou errado. Eu cometi um erro. – Explicava olhando tudo a volta. –
- Então muitas pessoas morreram sem motivo. – Levou a mão para o céu. – Eles poderiam ter feito muito mais com suas vidas.
- Padre, essas pessoas eram criminosos, trapaceiros, assassinos. Aquele mentindo na frente queria estuprar minha garota. Talvez Deus quisesse assim. Muitas pessoas terão uma vida melhor por causa disso.
- Sim, o senhor trabalha de formas misteriosas. – Falou concordando com a cabeça. – Mas e você? Consegue olhar para seu próprio rosto?
Os dois olharam o corpo no caixão.
- Suas mãos estão sujas de sangue que jamais será limpo.
- Eu sei disso, padre…
- Olhe a sua volta. – Tocou no ombro do mafioso. – Que desperdício! Teremos que consagrar a igreja novamente! Tudo está de cabeça pra baixo, nem sequer posso deixar meus fieis aqui! Que devo fazer?
Tommy levou a mão no bolso do terno e retirou um generoso pacote de dinheiro, era o que ele havia pegado no escritório
momentos antes.
- Será que isso pode ajudar? – Estendeu o dinheiro até o homem.
O padre ficou hesitante, olhando Tom. Depois, levou os olhos para o dinheiro. Calmamente, como se aquelas notas fossem de fogo, pegou e encarou-as, passando as mãos contando um pouco a quantia.
- Reze por minha alma, padre. – Retirava-se. – Vou precisar.
- Irei, meu filho. Com certeza irei. – E começou a contar o dinheiro, afirmando com a cabeça.
- A propósito, padre… Seu discurso sobre Billy… Eu estava pensando sobre sua consciência. Billy não era uma pessoa boa e ele não fez o bem enquanto estava vivo…
Abriu a grande porta da igreja, iluminando-a, e saiu. Fugiu usando o carro funerário que estava vazio do lado de fora, foi abandonado pelo funcionário em desespero. A policia chegaria a qualquer momento, e não descuidou ali. Mais tarde, Ralph cuidaria do carro.
Voltou para o bar do Salieri pensando sobre o garoto e todo o acontecido. Talvez, ele, um mafioso, fosse mais justo do que o padre.
Capitulo 13
1938
Tommy tinha acabado de tomar seu terceiro café e contar aquela parte de sua história. O irlandês mal podia acreditar. Grande parte dos fregueses já haviam ido embora e novos tinham chegado, o caderno já tinha várias imaginas escritas. Pontas e raspas de lápis estiravam-se pela mesa.
- Você deve estar brincando, né? Como você pode passar por isso?! – Debruçou sobre a mesa.
- Agora sim estava ficando ruim. O pai de Billy, o conselheiro, não estava contente conosco. E ele estava junto do Morello. – Explicava, com as mãos sobre a mesa, vendo o detetive escrever. – Sem a ajuda da máfia, ele não teria conseguido seu cargo. Ele também começou a mobilizar a policia. Agora havia tanto a máfia quanto a polícia contra nós.
- Ah, qual foi? – Norman duvidou, numa tentativa de resgatar a moral de sua corporação.
- Ei, ambos os lados se beneficiaram. A policia teve a chance de mostrar serviço na luta contra o crime e ao mesmo tempo, receber grandes extras do Morello, a quem deixaram sozinho. E com a ajuda da polícia, Morello poderia eliminar seu grande rival. Uma situação ideal, e as coisas ficavam piores para nós. Salieri perdeu muito e eu não estava indo bem depois daquela matança. – Recostou. – Começava a aparecer que não tinha sentido em nada, que eu deveria aproveitar tudo ao máximo e rapidamente enquanto havia chance, enquanto não era fácil perder a vida.
O silencio entre os dois tomou conta do recinto.
- Talvez seja por isso que eu e Paulie começamos a beber.
- Vocês não estavam se acabando, talvez? – Embora não tivesse percebido, mostrou sensibilidade.
- Minha vida era apenas um rastro de assassinatos, crimes e álcool. Se Frank não tivesse me ajudado, eu teria acabado pior. Era estranho, mas de repente ele veio a mim e queria me ajudar. – Franziu a testa.
Tommy começou então a relatar um momento importante entre ele e o consiglieri. Em um dia, pela tarde, Tom ia para o carro e Frank o chamou.
- Poderia me dar uma carona até minha casa, Tommy?
- Claro Frank, entre.
Os dois se acomodaram no Falconer.
- Então, como está a vida, Tommy? – Perguntou, fechando a porta.
- Bem, indo ok, apenas… apenas… Ah, nada… – Hesitou, não queria contar suas frustrações para o velho.
Frank o olhou dar partida.
- Ouvi que Paulie e você estão arrasando. Os dois tão ficando bem conhecidos na cidade.
- Só estamos gastando o dinheiro mesmo. – Dirigiu, dando uma curva e seguindo pelas ruas da Pequena Itália.
- Se você não quer acabar como lixo, Tom, ache um significado na sua vida.
- O quê? Você quer me pregar algo sobre o sentido da vida? – Perguntou, com um ar de riso na voz, sem perder a atenção no transito.
- Vi alguns caras bons que não puderam lidar com seus problemas e acabaram muito mal. Normalmente alguém te derruba pelo seu dinheiro ou talvez você fique louco e todos os amigos e as lindas damas começam a desaparecer. De qualquer forma, o Don não quer bêbados com mãos tremulas trabalhando para ele. – E fitou nos olhos de Tommy. – Esse tipo de pessoas só trás problemas. Se você não se cuidar, a próxima coisa que você verá será seu melhor amigo matando você num piscar de olhos.
Estava parado no sinal vermelho.
- Que devo fazer então?
- Vamos lá, seja você mesmo! Talvez investir grana em algum investimento. Poderia lhe dar algumas dicas. Desista da farra. – Aconselhou, quando o mafioso deu partida. – Vá às corridas com o Don nos domingos. Tente levar uma dama ao teatro, ou ao menos no cinema. Tem muitas coisas que você pode fazer.
- E quem eu deveria levar, Frank? Uma garota decente não quer um assassino.
- Veja, um policia vai “assassinar” para manter a lei. Você mantem as nossas leis. È a mesma coisa, apenas estamos do outro lado da cerca. Você não é um assassino, Tom. Mas ainda assim, sua mulher não deve interferir nos seus negócios. Lembre-se, nunca leve o trabalho para casa, isso apenas cria encrenca. – Aconselhava com seriedade.
- E aonde eu iria achar uma mulher pra mim, Frank?
- Achava que você tinha algo com a filha do Luigi, Sarah. Acho que ela é uma mulher maravilhosa. Mas você sozinho sabe melhor até onde pode ir com ela.
- Não vou colocar alguém como a Sarah em perigo, Frank.
Amava aquela mulher, mas jamais se perdoaria caso algo acontecesse com ela. Não se sentia digno pra ela. Em sua mente, Sarah merecia um rico empresário ou esportista, que a desse não apenas conforto, mas toda a segurança. Em prol de seu bem-estar, preferiu abdicar-se dela, embora essa idéia não houvesse se consolidado ainda.
Tommy sentia-se um vilão. Continuou seu caminho em direção à casa do conselheiro que, nitidamente, havia comunicado ao mafioso que o Don não estava tão satisfeito com esse seu estilo de vida. Para Tom, esses conselhos valeram como ouro. Não trocaram mais palavra alguma durante o caminho.
































